A planta milagosa “zabila/leele” ou hena: o momento da virada da segurança alimentar para uma pequena agricultora do norte de Gana

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1° de abril de 2010, como parte do pacote de informações n° 90.

Original em inglês disponível em: http://scripts.farmradio.fm/radio-resource-packs/package-90/the-miracle-plant-zabilaleele/.


Observações para as emissoras:

A sra. Amina Nabala Adam, de 46 anos da idade, mora na aldeia de Diare, na região norte de Gana.

Quando a sra. Amina Nabala Adam perdeu seu marido, doze anos atrás, ela tentou todas as estratégias de enfrentamento tipicamente empregadas pelas mulheres do norte de Gana. Elas incluem compra e venda, em que, todos os dias, as mulheres do norte de Gana ficam em um caminhão viajando de um mercado para outro, apenas para conseguir o suficiente para alimentar a sua família. Além do risco de acidentes com os veículos, a compra e venda traz o problema da dívida. Às vezes, as mulheres perdem dinheiro, em vez de fazer lucro. Isso também significa que todo o tempo ou dinheiro investido no negócio é perdido.

Muitas mulheres e meninas também migram para a parte sul do país. Mas isso realmente não as ajudou. Ao contrário, isso as expõe a doenças como HIV e AIDS e faz com que elas saiam da escola. Isso aumenta a quantidade de abandonos escolares e casamentos precoces na região norte de Gana.

Após a morte do seu marido, um pequeno pedaço de terra de cerca de meio acre foi tudo o que a sra. Amina recebeu como sua parcela da propriedade. Mas mesmo isso não é dela e será transferido para o seu filho mais velho quando ele tiver idade suficiente. Ela foi a última das quatro viúvas do seu marido, cujos filhos crescidos ficaram com todas as grandes fazendas férteis e outros bens.

A sra. Amina encontrou a solução para a fome constante da sua família plantando uma planta local chamada zabila (hena, em português), que é utilizada para produzir corantes finos. A venda da primeira safra de zabila para as empresas locais de cosméticos ajudou-a a diversificar o cultivo para incluir milho e amendoim, aumentando a sua renda familiar.

Uma produtora de rádio comunitária chamada Lydia Ajono acompanhou a história da sra. Amina Nabala Adam. A sra. Amina cultiva a planta zabila porque ela pode vender as folhas da planta em pó e pagar as mensalidades dos seus filhos. Ela ajuda a família dela a sobreviver a períodos de fome ao longo do ano, melhora a sua nutrição e aumenta a renda da família.

Este roteiro é baseado em entrevistas reais. Você poderá utilizá-lo como inspiração para pesquisar e escrever um roteiro sobre um tema similar na sua região. Ou você poderá decidir produzir este roteiro na sua emissora, usando radioatores para representar as pessoas. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas originalmente envolvidas nas entrevistas.


Roteiro:

Vinheta de abertura por vinte segundos

Apresentadora: Caro ouvinte, está na hora do nosso programa favorito, Pukpriba Saha (nota do editor: Pukpriba Saha significa Hora do Fazendeiro, no idioma dagbali da região norte de Gana). Seja bem-vindo! Na edição de hoje, observamos algumas das descobertas e conquistas das mulheres agricultoras do nosso país. Sou a sua apresentadora, Lydia Ajono.

Vinheta de abertura sobe e desce sob a voz da apresentadora

Apresentadora: Em Gana, ouvimos muitas vezes que as mulheres representam cerca de 51% da população do país. Mas quanto da sua contribuição para a economia nacional foi registrada? Na agricultura, sempre se acreditou que a contribuição das mulheres é limitada a produtos menos importantes. Estes incluem legumes, feijões e, às vezes, amendoim.

As mulheres podem ter acesso à terra para cultivar. Mas qual tipo de terra é este? Ela pode ser terra infértil que tenha sido abandonada pelos homens ou pode ser terra controlada por um homem, que tem a mulher como trabalhadora.

Mesmo quando uma mulher tem a oportunidade de cultivar, é muito caro e difícil para ela pagar pelos insumos, como sementes aprimoradas ou fertilizantes. Às vezes, a sociedade considera que as mulheres agricultoras contribuem menos com a renda doméstica. Isso faz com que as mulheres tenham baixa autoestima.

Quando a sra. Amina Nabala Adam perdeu o seu marido, doze anos atrás, ela ficou sozinha para criar cinco filhos. Em meio a essas dificuldades, a sra. Amina lembrou-se de uma planta tradicional chamada zabila ou hena e dos benefícios do seu cultivo. Essa planta maravilhosa havia sido apresentada a ela pela sua sogra muitos anos antes. A sra. Amina me disse que zabila havia sido uma das plantas que trouxeram a sobrevivência para mulheres da aldeia quando havia falta de alimentos nas casas. Eu perguntei a ela qual era o segredo do cultivo de zabila.

Sra. Amina: Eu lembro que a minha sogra me aconselhou a nunca parar de plantar zabila. Eu costumava ajudar a minha sogra muitos anos atrás a cultivar algumas plantas. Um dia, depois da morte do meu marido, quando as coisas da vida e a criação dos meus filhos estavam indo de mal a pior, fui procurar sementes de zabila.

Eu comecei a procurar na antiga fazenda da minha sogra. Eu encontrei algumas sementes, plantei um canteiro, cuidei das sementes e as reguei todo dia. Quando vieram as primeiras chuvas, eu as transplantei para um pedaço de terra de um acre que o meu falecido marido me deixou antes da sua morte.

Eu descobri a solução para a insegurança alimentar nessa planta maravilhosa que chamamos de zabila no idioma dagbali, conhecida como leele na língua hausa e que é usada pelas mulheres no mercado. Naquela época, ela estava quase extinta no norte de Gana, especialmente na aldeia de Diare.

Música tradicional gravada nas aldeias

Apresentadora: A sra. Amina passou todo o seu tempo na fazenda com o seu filho mais novo nas costas, apesar do sol escaldante. Os seus outros quatro filhos também estavam com ela. Ela prometeu aos seus filhos que iria gerar comida com zabila, o suficiente para alimentar e cuidar deles. Mal sabia ela como zabila a ajudaria a melhorar suas condições de vida.

Som ambiente da aldeia – animais à distância

Sra. Amina: (rindo, com sons de milho sendo limpo em um recipiente no fundo) Zabila é a minha vida e minha família. Quando você cultiva zabila, é para toda a vida. Os seus filhos e netos se beneficiarão com ela.

Zabila está sempre produzindo e você está sempre colhendo. Ela não precisa de fertilizantes. Tudo o que ela precisa é que o agricultor a mantenha livre das ervas. Garanto que ela vai ajudar você a ganhar dinheiro para sustentar a sua família.

Hoje posso pagar todas as mensalidades escolares dos meus filhos, que variam de US$ 500 a US$ 800 por ano. Meus cinco filhos estão bem alimentados e vestidos. Doze anos atrás, eu estava na miséria, sem ajuda depois da morte do meu marido. Como eu sou a quarta esposa, não tinha direito às propriedades dele. Eu precisei deixar minha casa matrimonial para morar aqui em uma cabana com as crianças. Aqui comigo ouvindo está uma das minhas filhas. Ela sempre me ajuda na fazenda.

Apresentadora: Qual é o seu nome e como você se sente, ouvindo a sua mãe?

Irmã Rahinatu: Meu nome é Rahinatu Adam. Eu tenho muito orgulho da minha mãe.

Apresentadora: O que você faz?

Irmã Rahinatu: Eu sou a segunda filha da minha mãe. Eu me formei na escola secundária e agora sou educadora informal na aldeia. A minha mãe vai à aula de alfabetização de adultos à noite. Quando o nosso pai morreu, eu estava na escola primária. A minha mãe pagou as mensalidades para que eu completasse a minha educação secundária.

Apresentadora: Quais são os seus planos para o futuro?

Irmã Rahinatu: Eu estou me preparando para inscrever-me em um instituto terciário para aprender administração e contabilidade. Estou confiante que a minha mãe vai me apoiar financeiramente para o curso.

Apresentadora: Agora, ouvinte, ande comigo pela fazenda de zabila da sra. Amina no lado oeste da aldeia.

Sons de pássaros

Apresentadora: Diga, sra. Amina, quais são os eventos mais memoráveis da sua vida nesta fazenda?

Pausa e sons de passos sobre folhas secas

Sra. Amina: Eu sempre choro quando me lembro daquele dia, anos atrás, quando precisei retirar as ervas deste terreno sozinha. Eu trabalhei do início da manhã até tarde da noite, sem nenhuma refeição adequada. Foi uma tarefa difícil para mim. Mas eu estava determinada a cultivar para ganhar renda e assim poder alimentar os meus filhos. Agora, não posso falar em agricultura sem mencionar o nome da minha velha amiga zabila. Nós colhemos zabila com uma foice. Quando eu sei qual é o tempo da colheita? É quando as plantas estão tão altas que você não pode ver as galinhas ciscando na fazenda.

Apresentadora: Quanto tempo a zabila leva para crescer?

Sra. Amina: Leva uma estação chuvosa, ou três a seis meses, até a colheita. Mesmo se houver seca, existe a esperança de boa colheita assim que a chuva vier. As plantas de zabila podem durar cinco a doze anos no mesmo terreno, dependendo do cuidado dedicado.

Apresentadora: Eu entendo que a sra. tem uma segunda fazenda, a alguns quilômetros de distância daqui. Quantos sacos de zabila a sra. consegue colher nessa fazenda?

Sra. Amina: Eu consigo colher vários cestos por dia. Depois de secar a zabila, eu consigo de sete a dez sacos de 80 quilos de zabila em pó.

No ano passado, vendi todos esses sacos e consegui dinheiro para cultivar dois acres de amendoins. Eu também recebi dinheiro para comprar alimentos suficientes para os meus filhos e pagar as suas mensalidades escolares. Normalmente, eu colho as folhas a cada três semanas, o que dá um total de cerca de oito a dez sacos. Durante a estação chuvosa, de julho a novembro, eu colho mais. Na estação seca, eu moo as folhas em pó e o armazeno em sacos. Um saco vale de US$ 30 a US$ 50,00.

Eu construí esta casa com os lucros que recebi da venda de zabila. Eu também usei parte do dinheiro para cultivar soja e amendoim. Eu tive uma colheita de amendoim muito boa, que me trouxe muito dinheiro. Então cultivei dois acres de milho. Eu uso todos os grãos que cultivo para alimentar minha família. Agora não temos falta de alimento na casa. Se eu precisar de algo mais, vendo zabila para pagar.

Apresentadora: Onde a sra. vende zabila?

Sra. Amina: Eu vendo a maior parte dela para os meus clientes especiais em Kumasi, em Gana, e também em Burkina Faso, que faz pedidos regulares dos meus produtos. Eu também vendo para algumas das mulheres do mercado na aldeia de Diare.

Música tradicional das mulheres

Apresentadora: Além da sua família, quem mais se beneficiou do seu trabalho e qual impacto teve a sua descoberta sobre os demais da sua comunidade?

Sra. Amina: (rindo) Eu diria que quase todas as mulheres de Diare agora plantam zabila. Existem apenas algumas mulheres que acham tedioso retirar as ervas das suas fazendas. Por isso, em vez de retirar as ervas, elas compram e vendem zabila em pó para ganhar alguma renda. Três anos atrás, o meu grupo de mulheres recebeu um prêmio do escritório distrital como as melhores plantadoras de amendoim do distrito. Nós usamos a renda da venda de zabila para empregar a mão de obra para expandir as nossas fazendas de amendoim. Por isso recebemos esse prêmio, graças à zabila. Este ano, consegui depositar cerca de US$ 6.000,00 no Banco de Desenvolvimento Agrícola para comprar um trator, sem a sua exigência habitual de garantia.

Graças à zabila, viajei para muitos lugares que eu nunca teria visitado. A qualquer momento em que sou convidado para compartilhar a minha história, vou com alguns dos membros do meu grupo de mulheres.

Quando há cerimônias de batismo, casamento ou funeral na comunidade, nós nos reunimos na minha casa para planejar a forma de apoiar as mulheres necessitadas. Atualmente, estou financiando seis outros filhos da aldeia que são órfãos ou muito necessitados.

Música gravada na aldeia

Apresentadora: Eu perguntei ao agente de extensão rural que havia acabado de chegar a Diare se ele acha que a sra. Amina realmente tem alguma ideia inovadora para solucionar a insegurança alimentar na região.

Sr. Konlaa: Fiquei impressionado com o trabalho dela. Ela é muito esforçada. Fiquei surpreso em ver que os grupos de mulheres que ela está liderando receberam tantos prêmios. Um dos prêmios foi do Projeto Agrícola Iraniano e outro foi da Companhia de Frutas Integrada de Tamale. Eu posso testemunhar que a sra. Amina não apenas se diversificou para outras safras, como soja, mas também possui a capacidade econômica de reduzir a falta de alimentos perenes na residência.

Apresentadora: Os benefícios e usos de hena em Gana são muitos. As flores são usadas para fabricar perfumes, tinturas de cabelo e medicina herbal. Nos centros locais de artes e mercados de cultivo, hena é utilizada para tingir e ornamentar vários produtos. Alguns produtores de ervas como curas tradicionais usam hena para repelir alguns insetos pragas e míldeo sobre safras ou legumes.

Música da aldeia aumenta por vinte segundos

Apresentadora: A história da sra. Amina demonstra que as mulheres do norte de Gana cumprem com a tarefa de garantir a segurança alimentar das suas casas. Isso ocorre apesar dos desafios do sistema de posse da terra que elas enfrentam. Lembre-se, a história de Amina é apenas o começo; existem muitas mulheres inovadoras. No próximo programa, vou contar outra história. Por enquanto, até logo.

Vinheta de abertura sobe e desce


Créditos:

Contribuição de Lydia Ajono, Rede de Rádios Comunitárias de Gana (GCRN), parceira da Rádio Rural Internacional.

Revisão: Helen Hambly Odame, Professora Associada, Escola de Projetos Ambientais e Desenvolvimento Rural, Universidade de Guelph, Canadá.


Fontes de informação:

  • Entrevista com a sra. Amina Nabala Adam, grupo de mulheres agricultoras de Diare, Savelugu/Nanton, Região Norte, Gana, 18 de outubro de 2009.
  • Entrevista com Konlaa Kombat, Agente de Extensão Rural, Diare, Savelugu/Nanton, 18 de outubro de 2009.
  • Escritório Regional de Desenvolvimento Comunitário, Tamale.
  • Kumar, S., Singh, Y. V, Singh, M. (2005), Agro-history, uses, ecology and distribution of henna (Lawsonia inermis L.). Henna cultivation, improvement and trade 11–12. Instituto de Pesquisa da Zona Árida Central, Jodhpur.
  • Henna: Cultivation, Improvement, and Temporary Tattoos & Henna/Mehndi: http://www.fda.gov/Cosmetics/ProductandIngredientSafety/ProductInformation/ucm108569.htm – acesso em três de agosto de 2009.
  • Unidade de Facilitação Global para Espécies Subutilizadas, sem data. Hena (Lawsonia inermis): http://www.underutilized-species.org/species/brochures/Henna_.pdf.

A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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