Como cuidar dos seus irmãos e irmãs: a prevenção da AIDS/SIDA em pessoas com necessidades especiais

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 21 de setembro de 2016, como parte do pacote de informações n° 104.

Original em inglês disponível em: http://scripts.farmradio.fm/radio-resource-packs/104-post-harvest-cow-pea/brother-sisters-keeper-preventing-hiv-aids-people-disabilities/.


Observações para as emissoras:

HIV e AIDS/SIDA é um problema crescente entre pessoas com necessidades especiais. Pesquisas indicam que pessoas com necessidades especiais encontram-se em risco igual ou maior de infecção por HIV que pessoas sem deficiências. Pessoas com necessidades especiais são altamente vulneráveis à violência sexual e não detêm acesso à informação, prevenção, tratamento e cuidados. Mulheres, adolescentes que vivem com deficiências, pessoas da zona rural, mulheres em instituições e pessoas que vivem áreas urbanas pobres também possuem risco maior de contrair HIV.

Devido à ausência de boas políticas e programas, a maior parte das pessoas que vivem com deficiências não sabe como cuidar-se e proteger-se. Muitos também não possuem autoestima e acham que não têm esperança de se casar. Por isso, eles não veem necessidade de fazer teste de HIV, nem de conseguir informações a respeito. Muitas pessoas que vivem com necessidades especiais desesperam-se e acham que não têm escolha com relação a sexo, acreditando que devem aproveitar qualquer oportunidade, em vez de ter confiança para fazer boas escolhas. Existe também a necessidade de sensibilizar a comunidade mais ampla sobre as deficiências, pois a maior parte dos países africanos detém pouca compreensão das necessidades especiais.

Indivíduos com necessidades especiais enfrentam três abusos principais de direitos humanos que aumentam o seu risco de infecção com HIV:

  1. Maior risco de violência e falta de proteção legal. As pessoas com deficiências são mais vulneráveis à violência porque muitas não possuem capacidade de defender-se. Com pouco acesso à polícia ou assistência legal em alguns países, as vítimas não sabem para onde dirigir-se. Eles também possuem menos acesso à assistência médica ou serviços como aconselhamento psicossocial.
  2. Falta de educação básica. As crianças portadoras de necessidades especiais frequentemente não recebem educação, incluindo a educação sobre a saúde sexual. O Banco Mundial estima que até 97% dos indivíduos com deficiências em todo o mundo e 99% das mulheres com deficiências são analfabetos. Sem educação sobre a saúde sexual, o indivíduo não saberá como HIV é contraído, nem o que fazer se for infectado.
  3. Falta de informação sobre a saúde sexual. Geralmente, acredita-se que as pessoas com deficiências não são sexualmente ativas. Na verdade, elas são tão propensas à atividade sexual quanto as pessoas sem necessidades especiais. Mas elas são menos propensas a ter acesso a informações sobre a prevenção do HIV ou acesso a métodos de prevenção como preservativos.

As pessoas pobres são mais propensas a ter deficiências devido à má nutrição, pouco acesso a cuidados médicos, moradias perigosas e lesões no trabalho.

O vírus HIV pode ter efeitos incapacitadores sobre indivíduos até então sem deficiências e causar atrasos significativos do desenvolvimento. Indivíduos que possuem necessidades especiais e tornam-se HIV-positivos são duplamente estigmatizados, o que reforça a sua pobreza.

É importante, enquanto rumamos para um mundo livre do HIV, incluir as pessoas com deficiências, que são frequentemente esquecidas.

Este roteiro destaca o papel da comunidade mais ampla e das instituições educacionais na ajuda às pessoas que vivem com deficiências para que tenham acesso a informações sobre HIV e AIDS/SIDA e para que sejam protegidas contra abusos. Ele também incentiva as pessoas com deficiências a participar ativamente da luta contra o HIV.

Você poderá optar por apresentar este roteiro como parte do seu programa regular sobre saúde ou agricultura, usando as vozes de atores para representar as pessoas. Se o fizer, informe a audiência que os atores estão representando pessoas reais que foram entrevistadas para o roteiro.

Você poderá também usar este roteiro como material de pesquisa ou como inspiração para criar o seu próprio programa sobre esta questão ou temas similares na sua região. Na sua pesquisa, você poderá entrevistar ativistas, pessoas com necessidades especiais, autoridades do governo que lidam com questões de HIV e AIDS/SIDA e também pessoas que vivem em instituições.

Você poderá considerar a pesquisa e transmissão de uma série de programas sobre este tema. Outros tópicos relacionados poderão incluir:

  • o que diz a lei sobre pessoas com necessidades especiais portadoras de HIV e AIDS/SIDA;
  • medidas de segurança e preventivas para pessoas com deficiências sobre abusos e HIV; e
  • como as pessoas com necessidades especiais podem combater o HIV nos seus grupos de apoio.

Duração estimada do programa: 20 minutos, com a música de introdução e encerramento.


Roteiro:

Apresentador: Olá, ouvinte, meu nome é Dominic Mutua Maweu. Sou jornalista freelancer em www.ruralvoicesafrica.info e trabalhador comunitário no Quênia.

Bem-vindo ao nosso programa. Hoje vamos falar sobre HIV e AIDS/SIDA em pessoas que vivem com necessidades especiais. As pessoas com deficiências estão entre os grupos de pessoas com maior risco de contrair o vírus. Mas elas têm sido ignoradas há muito tempo na luta contra HIV e AIDS/SIDA. Isso levou as pessoas com necessidades especiais a negligenciar-se e deixar de prestar atenção a temas sobre o HIV.

O programa apresenta como cuidar dos seus irmãos e irmãs na luta contra o HIV. Vou entrevistar três convidados, que vão destacar questões importantes que afetam as pessoas com deficiências na luta contra o HIV e a AIDS/SIDA. Acredito que, ao final do programa, você vai entender o que queremos dizer com cuidar do seu irmão e da sua irmã. Em outras palavras, como ser responsável pelo bem estar do seu irmão ou irmã.

Comigo agora está o nosso primeiro convidado, que foi treinado para cuidar de pessoas com necessidades especiais e é o principal professor de uma escola primária que ensina crianças que vivem com diferentes tipos de deficiências. Ele vai nos contar como cuidar dos nossos irmãos e irmãs pode ajudar na luta contra o HIV e a AIDS/SIDA em pessoas que vivem com deficiências. Bem-vindo! Por favor, apresente-se para os nossos ouvintes.

Reuben Mbwiko: Meu nome é Reuben Mbwiko e sou o professor principal da Escola Primária de Mwitasyano na Divisão Mtito Andei, no leste do Quênia.

Apresentador: Bem-vindo mais uma vez. Pelo que sei, Mwitasyano é uma escola dedicada a estudantes com necessidades especiais. O sr. pode começar dizendo qual é o seu papel na escola e os diferentes tipos de deficiências abordados por ela?

Reuben Mbwiko: De forma geral, existem cinco termos técnicos principais atribuídos aos tipos de deficiências: são as dificuldades físicas, mentais, visuais, auditivas e múltiplas. As dificuldades múltiplas ocorrem quando alguém possui mais de uma deficiência. Na minha escola, temos pessoas com todos os cinco tipos de deficiências.

Apresentador: O sr. trabalha com a consciência sobre HIV e AIDS/SIDA na sua escola?

Reuben Mbwiko: Sim, temos sessões de aconselhamento e conscientização sobre HIV e AIDS/SIDA.

Apresentador: O sr. tem um programa especial sobre HIV e AIDS/SIDA para pessoas com necessidades especiais?

Reuben Mbwiko: Não, normalmente nós reunimos as pessoas para evitar estigmatizar as pessoas com deficiências. Mas, para as pessoas com deficiências que precisam de assistência individual, nós cuidamos delas separadamente ou usamos métodos especiais para ajudá-las a compreender. Mas isso se aplica a todas as lições, não apenas HIV e AIDS/SIDA.

Apresentador: Como assegurar que os estudantes com necessidades especiais estejam a salvo de pessoas que poderiam aproveitar-se das suas dificuldades, especialmente no trajeto para a escola e na volta para casa?

Reuben Mbwiko: Bem, nós desenvolvemos um espírito de “cuidar do seu irmão e da sua irmã” na nossa escola. Isso ajuda até as pessoas que não possuem deficiências. Todos os alunos vão para casa como uma equipe; às vezes, os deficientes físicos são carregados pelos seus amigos nas costas! Isso também ajudou a aumentar a harmonia na escola; eles brincam juntos e fazem tudo juntos, como irmãos e irmãs.

Também falamos com os pais sobre a segurança dessas crianças com necessidades especiais. Aconselhamos os pais a terem cuidado com as pessoas em volta dos seus filhos e, ao mesmo tempo, relatar para as autoridades sobre qualquer criança com deficiências que não esteja indo para a escola. Às vezes, as crianças com deficiências desenvolvem baixa autoestima, o que faz com que elas não liguem quando sofrem abusos e deixem de relatá-los. Somente na escola as pessoas com deficiências podem aprender o seu valor para a comunidade.

Apresentador: Qual é a sua mensagem para a comunidade e para os que vivem com deficiências sobre o HIV e a AIDS/SIDA?

Reuben Mbwiko: Cada um de nós possui suas próprias necessidades especiais; nenhum de nós é perfeito. Precisamos uns dos outos em diferentes formas e devemos estar prontos para nos ajudar com nossas dificuldades na vida. Minha mensagem para os legisladores e ativistas é que precisamos de boas políticas sobre HIV e AIDS/SIDA para pessoas com necessidades especiais. Para fazer boas políticas, precisamos também de bons dados sobre HIV e AIDS/SIDA em pessoas com deficiências.

Apresentador: As pessoas que vivem com necessidades especiais são o grupo com maior risco de pessoas HIV-positivas devido à forma das suas relações com a comunidade. Vamos ouvir a nossa próxima convidada, que vai falar sobre a sua vida com necessidades especiais e como líder das pessoas com deficiências.

A Sra. Joyce Mawiyoo é uma mãe solteira com 55 anos de idade que vive com deficiência. Joyce não nasceu deficiente, mas sofreu um acidente quando tinha dez anos de idade que prejudicou suas duas pernas. Ela agora chefia as pessoas que vivem com necessidades especiais no subcondado do Leste de Kibwezi. Aqui está a nossa conversa.

Apresentador: Joyce, como líder na sua região, poderia dizer se há algum programa que informe às pessoas com necessidades especiais sobre HIV e AIDS/SIDA?

Joyce Mawiyoo: Nós não temos esses programas. As pessoas com necessidades especiais foram ignoradas em muitos aspectos, incluindo a luta contra o HIV. Muito poucas pessoas querem associar-se a nós e, na maior parte dos casos, deixamos de conseguir inormações importantes sobre a vida.

Apresentador: A sra. acha que as pessoas com necessidades especiais precisam ser informadas sobre HIV e AIDS/SIDA?

Joyce Mawiyoo: As pessoas com deficiências são o grupo com mais risco de contrair o vírus e, por isso, elas precisam de todas as informações sobre o HIV. Apesar de termos algum tipo de deficiência, somos seres humanos com sentimentos e direito de reprodução.

A maioria das pessoas com deficiências desespera-se poque ninguém quer associar-se conosco. A maioria das pessoas que nos visitam ou marcam encontros conosco para sexo vem à noite, quando elas não são vistas. Esta situação nos deixa sem opção a não ser aproveitar essa oportunidade. As mulheres encontram-se em maior risco. É por isso que você encontra uma jovem com deficiências grávida, mas nunca saberá quem é o pai.

Apresentador: O que a sra. discute quando se encontra com seus grupos de pessoas com necessidades especiais?

Joyce Mawiyoo: Nós discutimos questões da vida em geral: como conseguir materiais de apoio como cadeiras de rodas, muletas etc. Nós também discutimos atividades geradoras de renda para não sobrecarregar as pessoas próximas, que, na maioria das vezes, acham que somos um infortúnio para a comunidade.

Apresentador: Como líder que compreende essas coisas, a sra. fala sobre HIV e AIDS/SIDA nos seus grupos?

Joyce Mawiyoo: A maioria dessas pessoas desespera-se e não tem conhecimento. Quando você tenta falar com eles sobre essas coisas, eles fingem que não precisam saber porque ninguém está interessado neles. Mas nós tentamos fazê-los entender.

Apresentador: Qual é a sua mensagem final?

Joyce Mawiyoo: Gostaria de convocar o governo a criar programas que informem às pessoas com necessidades especiais tudo sobre HIV e AIDS/SIDA e preparar materiais de informação que possam ser utilizados por pessoas com deficiências visuais. Para os meus amigos que vivem com deficiências, vamos nos amar e parar de fingir. Temos todo o direito de aproveitar a vida ao máximo!

Apresentador: Antes de encerrar, vamos ouvir uma menina com necessidades especiais que acabou de se formar na escola secundária. Embora ela tenha se beneficiado por ir à escola, ela reluta em começar um relacionamento com um menino, simplesmente porque ela acredita que ninguém iria querer associar-se a uma pessoa com deficiência. Comigo está Betty Nzuki, que tem vinte anos de idade e vive com necessidades especiais. Betty vive em uma cadeira de rodas e está com sua irmã mais nova. Vamos ouvir.

Betty Nzuki: Meu nome é Betty e esta é a minha irmã mais nova; ela está sempre comigo.

Apresentador: Você vai para a escola?

Betty Nzuki: Eu me formei na escola secundária no ano passado e agora os meus pais estão estudando como eu posso ir para a faculdade.

Apresentador: E a sua irmã? Ela vai para a escola ou também está esperando para ir para a faculdade?

Betty Nzuki: Ela está no segundo ano, mas agora eles estão de férias.

Apresentador: Mas você me disse que ela está sempre com você. O que acontece quando ela está na escola?

Betty Nzuki: (rindo) Bem, nós estamos sempre juntas quando ela não está na escola. Ela até costumava me levar primeiro para a escola e depois ir para a escola dela, que ficava perto.

Apresentador: Muito bem, por favor, conte sobre a sua vida na escola. Você estava sendo tratada como uma pessoa especial que vivia com deficiências?

Betty Nzuki: Não, mas todos naquela escola me adoravam e estavam prontos para ajudar sempre que eu precisasse. Depois que a minha irmã saía para a escola dela, o resto ficava com os meus amigos, que normalmente me esperavam no portão da escola.

Apresentador: Você ficou sabendo sobre HIV e AIDS/SIDA na escola?

Betty Nzuki: Sim, havia aulas sobre isso e, às vezes, conselheiros daquelas organizações que cuidavam das campanhas sobre HIV costumavam vir e ensinar para nós.

Apresentador: Havia aulas especiais sobre HIV e AIDS/SIDA para pessoas com necessidades especiais?

Betty Nzuki: Não. E para quê? Não acho que houvesse necessidade, já que a epidemia de HIV e AIDS/SIDA é igual para todos. Só com relação a estupros, eles nos diziam para tomar mais cuidado com as pessoas à nossa volta. Também fomos alertados para escolher amigos que possam cuidar bem dos irmãos ou irmãs.

Apresentador: Muito bem. Você pode falar sobre os seus pais? Eles dão algum conselho sobre HIV e AIDS/SIDA?

Betty Nzuki: Não, mas eles estão sempre muito conscientes sobre a minha proteção. Sempre fico com alguém que possa me proteger contra qualquer abuso.

Apresentador: Com esses três convidados, fica claro que a luta contra o HIV e a AIDS/SIDA não estará completa se não incluirmos todas as pessoas da comunidade. Aprendemos com eles que as pessoas com necessidades especiais também participam de todas as atividades que levam à difusão do vírus.

Por isso, os governos, organizações de direitos humanos, organizações de pessoas com deficiências e a comunidade em geral precisam trabalhar em conjunto para atingir melhores resultados na luta contra o HIV e a AIDS/SIDA.

Os pais de filhos com necessidades especiais devem ajudá-los a compreender que eles são seres humanos com todos os direitos de aproveitar a vida, e não simplesmente protegê-los.

Por fim, é sua responsabilidade como pessoa com deficiências saber que se trata da sua saúde e que qualquer mudança para melhorar a sua situação começa com você. Você também pode cuidar dos seus irmãos e irmãs fazendo o teste de HIV. Mesmo as pessoas que vêm visitar você secretamente precisam ser protegidas contra o HIV.

O nosso programa termina aqui. Estou feliz por termos aprendido juntos. Até a próxima!


Créditos:

Contribuição de Dominic Mutua Maweu, jornalista freelancer em www.ruralvoicesafrica.info.

Revisão: Gail White, Consultor de Promoção de Saúde, Cidade do Cabo, África do Sul.


Fontes de informação:

Entrevistas:

  • Reuben Mbwiko, Professor Principal, Escola Primária de Mwitasyano, seis de dezembro de 2015.
  • Joyce Mawiyoo, chefe de pessoas com necessidades especiais no Subcondado do Leste de Kibwezi, sete de dezembro de 2015.
  • Betty Nzuki, menina que vive com deficiência física, sete de dezembro de 2015.

A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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