Processamento de cereais em cerveja local: atividade que gera renda para as mulheres

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1° de dezembro de 2012, como parte do pacote de informações n° 95.

Original em inglês disponível em: http://scripts.farmradio.fm/radio-resource-packs/package-95-researching-and-producing-farmer-focused-programs/processing-cereals-into-local-beer-an-income-generating-activity-for-women/.


Observações para as emissoras:

Desde o começo dos tempos, cada comunidade vem processando produtos alimentícios locais para torná-los seguros para que as famílias comam e bebam. Outros produtos processados destinam-se a venda ao público.

Este é o caso dos cereais em Burkina Faso, um país no coração da África ocidental. Em Burkina Faso, os cereais, particularmente sorgo branco ou vermelho, são processados em dolo, a cerveja local. Dolo é alcoólico quando fermentado e não alcoólico quando não fermentado.

Deve-se observar que, em Burkina Faso e em alguns outros países francófonos no oeste da África, afirma-se que essa cerveja local é elaborada com “milheto”, embora ela seja, na verdade, feita com sorgo branco ou vermelho. Neste roteiro, ela será chamada de “cerveja de sorgo” ou dolo.

Essa cerveja local costumava ser preparada para ocasiões especiais, como celebrações tradicionais, funerais e no Dia da Independência. Mas, atualmente, ela é uma bebida comercial popular que é segura para beber, contém baixo teor alcoólico e pode ser encontrada em todos os mercados rurais e urbanos do país. A fabricação de cerveja de sorgo é uma atividade lucrativa que ocupa muitas mulheres no “país dos homens honestos”. Este é o significado de “Burkina Faso” em português.

Este roteiro é baseado em entrevistas reais. Você poderá utilizá-lo como inspiração para pesquisar e escrever um roteiro sobre um tema similar na sua região. Ou você poderá decidir produzir este roteiro na sua emissora, usando radioatores para representar as pessoas. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas originalmente envolvidas nas entrevistas.


Roteiro:

Apresentador: Bernadette Zongo é uma mulher na casa dos cinquenta anos. Ela é casada com um professor escolar e eles têm duas filhas e um filho. A Sra. Zongo vive em Ziniaré, uma cidade a 35 km da capital de Burkina Faso, Ouagadougou.

A Sra. Zongo não esperava que tudo viesse do marido dela. Ela só queria fazer alguma coisa que lhe desse alguma renda. Assim que se casou, ela decidiu começar a fabricar cerveja de sorgo, a bebida local que é muito apreciada pelos moradores do campo e da cidade. A Sra. Zongo é a presidente de um grupo de mulheres que produz cerveja de sorgo na sua comunidade. O nosso repórter, Adama Zongo, entrevistou-a para descobrir como a cerveja é preparada. Ela nos conta em primeiro lugar as etapas envolvidas na fabricação de cerveja de sorgo.

Bernadette Zongo: (em voz tímida) A preparação de dolo (nota do editor: nome popular da cerveja de sorgo em Burkina Faso) envolve várias etapas. A primeira etapa é conseguir sorgo germinado. Depois de encontrar o sorgo germinado, ele é moído. Em seguida, eu adiciono água ao sorgo germinado moído e espero até que o grão se assente no fundo do frasco. Depois eu faço um pouco de água pegajosa embebendo caules de quiabo, que possui consistência parecida com cola. Eu misturo essa água pegajosa com a água assentada. Depois espero até que o sorgo germinado se deposite de novo no fundo do frasco.

Adama Zongo: O que a sra. faz depois, Sra. Zongo, quando o sorgo germinado já se assentou no fundo do frasco?

Bernadette Zongo: Eu coo o sorgo da água e o fervo no fogo por cerca de uma hora e trinta minutos. Depois o despejo de novo na mesma água. Aquela água assenta por 24 horas até ficar ácida. Depois faço uma segunda decantação para separar a borra do líquido ácido.

Adama Zongo: A sra. pode explicar o que é a “borra”?

Bernadette Zongo: A borra é o subproduto sólido que sobra da produção de dolo. Depois coloco o líquido ácido de volta no fogo por cerca de duas horas. Eu cozinho em grandes potes de argila cozida. Eu uso cinco potes para cada produto – a borra e o líquido ácido. Cada pote tem pelo menos trinta litros.

Após o cozimento, faço uma última decantação e deixo o líquido esfriar em seguida. Depois agrego a levedura. O dolo está pronto para beber um dia depois do segundo dia de cozimento.

Adama Zongo: Muito bem, vou resumir então o processo mais uma vez para os nossos ouvintes. Primeiro a sra. mói o sorgo germinado, adiciona água ao sorgo e espera até que ele se assente.

Bernadette Zongo: Isso mesmo.

Adama Zongo: Depois a sra. embebe caules de quiabo em água, adiciona aquela água pegajosa à água com sorgo e espera até que o sorgo assente de novo.

Bernadette Zongo: Exato.

Adama Zongo: Em seguida, a sra. coa o sorgo da água, espera que ele cozinhe por cerca de uma hora e meia e o despeja de volta na mesma água.

Bernadette Zongo: Certo.

Adama Zongo: Então a sra. deixa a água em repouso por 24 horas até que ela fique ácida e faz uma segunda decantação pra separar a borra do líquido.

Bernadette Zongo: Exatamente. Depois a última etapa é cozinhar o líquido por cerca de duas horas. Depois que o líquido esfria, adiciono a levedura. Depos espero 24 horas e o dolo está pronto para beber.

Adama Zongo: Este processo envolve diversas etapas. Se algum dos nossos ouvintes quiser mais informações sobre este processo, pode telefonar para a emissora e daremos todas as etapas.

Bernadette Zongo: Muito bom!

Apresentador: Estaremos de volta após um curto intervalo paa contar mais sobre como a Sra. Zongo ganha a vida produzindo dolo.

Intervalo musical

Adama Zongo: A produção de dolo gera subprodutos que são comidos por seres humanos e animais. A Sra. Zongo sabe como ganhar dinheiro com todos esses produtos.

Bernadette Zongo: (Sorrindo) É verdade! Os subprodutos do processamento de sorgo germinado em cerveja são a borra e a levedura. Sim, a levedura também é usada como insumo para a produção de dolo. Mas uma quantidade muito maior de levedura é gerada como subproduto do processo de fabricação de cerveja. A borra é usada como alimento para os animais. A levedura agrega sabor aos molhos. Vendendo esses produtos, eu ganho 500 francos CFA (cerca de US$ 1) por quilo de levedura e 2500 francos CFA (cerca de US$ 5) por carrinho de borra.

Adama Zongo: Mas a Sra. Zongo ganha muito mais que isso. Com o dinheiro que ela recebe da venda de dolo, ela comprou um terreno onde ela fez melhorias. Com o aluguel do terreno, ela ganha dinheiro ao final de cada mês. Mas preparar dolo e vendê-lo não é o suficiente para a Sra. Zongo. Ela também o distribui na cidade de Ziniaré.

Bernadette Zongo: (Confiante) Eu vendo produtos para mulheres comerciantes. Elas compram uma ou duas garrafas e as vendem para os seus clientes. Com isso, elas ganham uma pequena renda com as suas vendas. Assim, todos ganham a sua parte, mesmo se for pouco.

Adama Zongo: A preparação de dolo é um trabalho exaustivo que exige algumas qualidades especiais. A Sra. Zongo nos conta um pouco mais sobre isso.

Bernadette Zongo: Para ser produtor de dolo, você precisa ter boa saúde e razoável força física. Eu digo isso porque o trabalho não termina em um dia ou meio dia. Se você já tem o sorgo germinado em mãos, vai precisar de dois dias de trabalho intensivo. Você também precisa ser forte para esvaziar os potes de argila, carregar baldes cheios de cerveja de um frasco para outro, carregar muita lenha para o fogão e realizar outras tarefas.

Adama Zongo: A Sra. Zongo usa lenha para preparar dolo. A cada vez que ela faz cerveja, a Sra. Zonga coloca dez potes de trinta litros no fogo. Imagine! Acho que a Sra. Zongo tem algo a dizer…

Bernadette Zongo: (Impaciente) Você pode achar que estou colaborando com o desflorestamento do meio ambiente. Sei que estou usando uma boa quantidade de lenha para produzir dolo. A lenha é a nossa fonte de energia. Mas ela está ficando cada vez mais rara na nossa região. É por isso que eu decidi usar um fogão aprimorado que consome menos lenha e retém o calor. O fogão é uma caixa e o pote fica sobre ela. A lenha é inserida em uma abertura em um lado da caixa. Isso torna o fogão muito mais eficiente; ele usa muito menos madeira. Eu continuo usando lenha enquanto espero a instalação dos biodigestores. Eles serão mais econômicos e não usam madeira.

Adama Zongo: O biodigestor é um recipiente no qual excrementos animais se decompõem para produzir gás metano. Esse gás pode então ser usado para cozimento, iluminação e outras coisas. O biodigestor é barato e de fácil instalação. Ele também protege a saúde da Sra. Zongo, evitando sua exposição à fumaça proveniente do fogo.

Apresentador: Bem, ouvinte, o programa de hoje está terminando. Nós apresentamos a você uma mulher que está contribuindo com o desenvolvimento econômico da sua comunidade produzindo dolo. Nós nos encontramos em breve no próximo programa. Se você tiver qualquer pergunta sobre a produção de dolo, entre em contato com a nossa emissora.


Créditos:

Contribuição de Adama Gondougo Zongo, jornalista da Jade Productions, Burkina Faso.

Revisão: Barrie Axtell, consultor independente, anteriormente com ITDG/Practical Action.

Agradecimentos: Alfred Kagambèga, gerente de programas da Rádio Kakoaadb Yam Vénègré, de Ziniaré.


Fontes de informação:

Entrevista com a Sra. Bernadette Zongo, nome de solteira Tapsoba, produtora de dolo em Ziniaré, Burkina Faso, 17 de dezembro de 2011.


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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