Agricultores triplicam a produção de sorgo graças à adubação verde

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 21 de setembro de 2016, como parte do pacote de informações n° 104.

Original em inglês disponível em: http://scripts.barza.fm/radio-resource-packs/104-post-harvest-cow-pea/farmers-triple-sorghum-yield-thanks-mulch-farming/.


Observações para as emissoras:

No Sahel, a terra arável vem se degradando há décadas. Essa degradação tem muitas causas, que incluem o desaparecimento da cobertura vegetal, a erosão do solo causada pelo escoamento de água e ventos violentos. Todos esses fatores contribuem para reduzir a fertilidade da terra e a produção agrícola.

A metade do território de Burkinabé está localizada no árido Sahel, onde há menos de 650 milímetros de chuva por ano.Desde os anos 1970, bolsões de seca têm sido comuns. Em média, a chuva é insuficiente em um a cada quatro anos.

A fim de sobreviver, os agricultores estão inovando continuamente com formas de recuperar o solo e torná-lo mais fértil.

Neste roteiro, vamos descobrir uma inovação denominada “agricultura com adubação verde”. Um agricultor criou um método engenhoso de usar uma planta local. Graças a este método, agricultores locais estão aumentando significativamente a sua produção.

Este roteiro é baseado em entrevistas com agricultores na região centro-norte de Burkina Faso.

Você poderá decidir produzir este roteiro na sua emissora, usando radioatores para representar as pessoas. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas originalmente envolvidas nas entrevistas.

Você poderá também usar este roteiro como material de pesquisa ou inspiração para criar o seu próprio programa sobre o cultivo de produtos em condições áridas. Converse com agricultores e especialistas que estejam enfrentando esses desafios. Você poderá perguntar a eles:

  • Quais dificuldades vocês experimentam com a agricultura nesta região?
  • Vocês encontraram soluções para estes desafios?
  • Vocês tentaram adubação verde ou outros métodos de reter a umidade do solo? Se tentaram, qual foi o resultado?
  • O que dizem os agentes de extensão rural e outros especialistas sobre esses desafios?

Tempo estimado de condução do roteiro: 10-12 minutos, com a música de introdução e encerramento.


Roteiro:

Vinheta de abertura

Apresentador: Olá, bem-vindo ao programa desta semana.

Na região do Sahel em Burkina Faso, o sorgo sempre foi o principal cereal. Mas as colheitas vêm caindo continuamente nas últimas três décadas. Isso gerou a disseminação da fome e da pobreza nas comunidades rurais. As velhas formas de cultivo não servem mais para a nova situação; particularmente, a prática de queima dos resíduos da produção, que destrói os nutrientes do solo.

Felizmente, os agricultores não estão desistindo. Eles estão inovando constantemente, a fim de encontrar novas formas de fertilizar o solo. A adubação verde é uma delas. A técnica envolve o uso engenhoso de uma planta local, chamada bâagandéin no idioma local, ou conhecida pelo seu nome científico Piliostigma reticulatum. Eles estão usando essa planta como adubo para fertilizar o solo. Graças a este método, muitos agricultores dobraram ou até triplicaram a sua produção. Como você deve haver adivinhado, o programa de hoje vai discutir a adubação verde.

Sobem sons de fazenda por alguns segundos, que diminuem em seguida sob a voz das pessoas.

Apresentador: Estamos na aldeia de Yilou, na região centro-norte de Burkina Faso, com Harouna Sawadogo e sua família. Hoje, Harouna e os sete membros da sua família estão no meio da colheita. Os homens colocam as hastes de sorgo sobre o solo, as mulheres cortam as cabeças dos grãos e as crianças as carregam para uma carroça. Só de olhar, pode-se ver que a colheita é boa. Vamos falar com o chefe da família. Olá, por favor, apresente-se para os nossos ouvintes.

Harouna Sawadogo: Meu nome é Harouna Sawadogo. Sou um produtor de sorgo que vive em Yilou.

Apresentador: Pelo que vejo, a colheita será boa.

Harouna Sawadogo: Sim, a colheita está muito boa, apesar da chuva ter sido apenas razoável. Tivemos cerca de quinze dias sem chuva enquanto o sorgo estava amadurecendo. Mas, felizmente, a produção não sofreu muito. Espero colher pelo menos três toneladas de sorgo no meu campo de um hectare e meio. Isso é suficiente para atender às necessidades da minha família o ano inteiro.

Apresentador: A sua produção é extraordinária para esta região, considerando a deterioração do solo. Nos campos vizinhos ao seu, o solo está duro e quase nada cresce. Qual é o seu segredo?

Harouna Sawadogo: O meu campo era tão duro quanto os solos em volta dele. Por aqui, chamamos essa crosta dura de zippélés, que significa “solo nu” em idioma mooré. Graças à adubação verde, consegui transformá-lo em solo mole e fértil.

Apresentador: Você mencionou a adubação verde. O que é isso?

Harouna Sawadogo: Adubação verde é minha própria inovação. Cinco anos atrás, notei que os lugares mais férteis do meu campo eram aqueles em que os ramos de um arbusto leguminoso chamado Piliostigma reticulatum cobriam o solo. Então decidi cobrir todo o campo com os ramos do arbusto e hastes de sorgo. No primeiro ano, o efeito já foi considerável. Mas, no segundo ano, a minha colheita aumentou substancialmente.

Apresentador: Estou surpreso. Como simplesmente cobrir o campo com ramos e hastes tornou o solo fértil?

Harouna Sawadogo: Sim, é isso mesmo! Os ramos de Piliostigma reticulatum protegem o solo contra os ventos. Eles também retêm o escoamento de água e permite que a água infiltre-se no solo. Isso aumenta a umidade do solo e ajuda no desenvolvimento das plantas. Para aumentar a fertilidade, trago adubo orgânico feito com esterco de vaca.

Apresentador: O que a adubação verde mudou na sua vida de agricultor?

Harouna Sawadogo: Tudo. Eu costumava ganhar apenas o suficiente para alimentar minha família por seis meses no ano. Agora, no meu celeiro, tenho sorgo colhido três anos atrás. Também coloquei meus dois filhos mais jovens na escola secundária. Minha família está tendo uma boa vida.

Apresentador: Harouna não é o único agricultor que mudou sua vida para melhor. Encontramos outro agricultor que está feliz desde que começou a praticar este método. Por favor, apresente-se para os nossos ouvintes.

Paténèma Sawadogo: Meu nome é Paténèma Sawadogo. Sou produtor agrícola em Yilou.

Apresentador: Como você adotou a adubação verde?

Paténèma Sawadogo: Isso aconteceu naturalmente. Quando os outros agricutores viram a boa produção que conseguiu Harouna, eles quiseram seguir o exemplo dele. Então criamos uma escola de campo dos agricultores, com o apoio de um projeto de desenvolvimento.

Apresentador: Quais são os benefícios da adubação verde?

Paténèma Sawadogo: Existem vários. Além de aumentar a produção, o uso da vegetação reduz o tempo de trabalho. Nós não precisamos mais adotar métodos trabalhosos como construir barreiras de pedra e fossos.

Apresentador: Caro ouvinte, na primeira parte do programa, descobrimos como funciona a adubação verde e quais são os seus benefícios. Nesta segunda parte, vamos discutir as dificuldades e os desafios relacionados à adubação verde. Ainda estamos com Harouna e Paténèma Sawadogo. Com base na sua experiência, quais são as dificuldades?

Harouna Sawadogo: A principal dificuldade é a disponibilidade da vegetação. Também precisamos dela para alimentar os animais. As mulheres também recolhem as hastes de sorgo para usar como lenha.

Paténèma Sawadogo: Para aumentar a quantidade de vegetação nos campos, nós plantamos mudas de Piliostigma reticulatum. Mas elas crescem devagar e a necessidade é enorme. Por isso nós cobrimos os campos com hastes de sorgo.

Apresentador: O que os especialistas agrícolas que supervisionam os agricultores pensam sobre a adubação verde? Nós perguntamos a Georges Félix a sua opinião. O Sr. Félix trabalha na Universidade de Wageningen, na Holanda, e coopera com o Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, ou IRD, na sigla em francês, em Ouagadougou, em Burkina Faso. Por favor, apresente-se para os nossos ouvintes.

Georges Félix: Meu nome é Georges Félix. Como parte do meu doutorado na universidade, eu trabalho com a recuperação de terras agrícolas em colaboração com o IRD e com famílias de agricultores de Burkina Faso.

Apresentador: O que o sr. pensa sobre a adubação verde?

Georges Félix: É uma inovação interessante. A colocação de vegetação sobre o solo permite a retenção da umidade. Quando os cupins consomem a vegetação, por exemplo, eles a transformam em húmus, que enriquece o solo. Os cupins também cavam túneis subterrâneos que permitem que o escoamento de água penetre no solo.

Apresentador: Quais são as limitações do método?

Georges Félix: Uma das limitações é a extensão da sua compreensão pelos agricultores. Não é tão simples quanto aplicar fertilizante. Você precisa saber onde e quando aplicar a vegetação.

Apresentador: Qual é o melhor momento de aplicar o adubo verde e o melhor solo para aplicá-lo?

Georges Félix: A melhor forma de beneficiar-se da adubação verde é começar a preparar o campo antes do início da estação chuvosa. Aconselhamos os agricultores a cobrir todo o campo com hastes de sorgo ou Piliostigma reticulatum. Assim, quando começar a chover, o campo estará pronto para o cultivo.

Apresentador: Este método é adequado para todos os tipos de solo?

Georges Félix: Estamos pesquisando esta questão no momento. Mas, geralmente, os agricultores usam o método em lugares onde o solo tem crosta dura. Eles não aplicam o método em terras baixas.

Apresentador: Como os agricultores poderiam aprimorar o método?

Georges Félix: Nos últimos três anos, estivemos trabalhando com os agricultores para padronizar e aprimorar a inovação. Temos campos experimentais em Yilou.

Apresentador: Quais são os resultados dessa experimentação?

Georges Félix: Notamos que, quando aplicamos uma dose dupla de adubo verde, a produção é um terço melhor que com uma dose única. Não há dúvida quanto a isso porque o solo retém melhor a umidade e permite a infiltração de água, além do material vegetal orgânico que o adubo verde fornece ao solo.

Apresentador: O que é uma dose única e uma dose dupla?

Georges Félix: A dose única é de 800 a 1200 quilos de vegetação por hectare. A dose dupla é de 1600 a 2000 quilos por hectare.

Apresentador: O sr. acha que este método poderá ser útil para os agricultores em todos os países do Sahel?

Georges Félix: Sim, é possível, porque o arbusto cresce em toda parte nesta região: Piliostigma reticulatum no Sahel e Piliostigma thonningii (nota do editor: chamado de bâaganyaanga no idioma mooré) em áreas mais úmidas. Não é um método importado, então é fácil de copiar. Os agricultores só precisam ser convencidos de que existe alternativa para a queima da vegetação. Eles podem usar este método para melhorar o solo. E eles podem ser inspirados pelos agricultores inovadores de Yilou para usar plantas locais para aumentar a fertilidade do solo.

Apresentador: Caro ouvinte, Piliostigma reticulatum aumenta a quantidade de carbono, fósforo e nitrogênio no solo. Ele também contribui com a atividade dos cupins no solo. Todos estes fatores aumentam a fertilidade do solo.

É importante observar que alguns arbustos pertencentes à mesma família possuem propriedades similares a Piliostigma reticulatum e também ajudarão o nosso solo e a sua produção. Esses arbustos incluem Combretum micranthum, chamado de randga em mooré e Combretum glutinosum, chamado de kutumpãgade em mooré.

Caro ouvinte, hoje falamos sobre a adubação verde. Os agricultores da região central de Burkina Faso estão cobrindo algumas partes dos seus campos com ramos de um arbusto denominado Piliostigma reticulatum, a fim de aumentar a fertilidade do solo, permitindo a produção de safras maiores e melhores.

Eles começam a adubar os seus campos logo após o final da estação chuvosa. Você deve cobrir todo o campo com ramos. Se não houver ramos suficientes, você pode usar hastes de sorgo para aumentar a superfície do campo que é coberta com vegetação. Quando você cobre o campo desta forma, você o protege contra o sol, o vento e o escoamento de água.

Para aumentar a fertilidade do solo, você pode também espalhar fertilizante orgânico ou composto sobre o campo. Você pode então plantar assim que começarem as primeiras chuvas. Para conseguir os benefícios esperados, é importante repetir as mesmas atividades todos os anos. Fazendo isso, os seus filhos terão terras férteis, que lhes permitem cultivar o alimento de que suas famílias precisam.

Com estas palavras, terminamos o programa de hoje. Voltaremos na próxima semana para discutir outro tema. Até lá!


Créditos:

Contribuição de  Nourou-Dhine Salouka, repórter da Barza Wire em Burkina Faso.

Revisão: George Félix, estudante de Ph.D na Universidade de Wageningen, Holanda.

Fontes de informação:

Entrevistas:

  • Harouna Sawadogo, agricultor que inventou o método, 26 de novembro de 2015.
  • Paténèma Sawadogo, agricultor que adotou a adubação verde, 26 de novembro de 2015.
  • Fatim Belem, técnica agrícola em Yilou, 26 de novembro de 2015.
  • George Félix, estudante de Ph.D na Universidade de Wageningen, na Holanda, que trabalha com restauração do solo em Burkina Faso, em colaboração com o IRD, 30 de novembro de 2015.

A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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