Como ensinar aos jovens sobre sexualidade

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 17 de abril de 2014, como parte do pacote de informações n° 98.

Original em inglês disponível em: http://scripts.barza.fm/radio-resource-packs/package-98-groundnuts-the-post-harvest-value-chain/teaching-youth-about-sexuality/.


Observações para as emissoras:

Os problemas com HIV e AIDS/SIDA têm forte relação com muitas questões sócio-culturais complexas. Em algumas culturas, por exemplo, é considerado “masculino” provar sua virilidade tendo sexo com muitas parceiras. Em algumas culturas, as meninas têm “pais doces” que vendem sexo por outros tipos de favores. A herança das viúvas pode também ter impacto sobre a divusão do HIV e da AIDS/SIDA. A incapacidade das mulheres de realmente convencer os homens a usar preservativos, a pobreza que leva alguns homens e mulheres para o comércio sexual e muitas outras relações culturais, sociais e de poder têm impacto profundo sobre a difusão e a taxa de infecção de HIV e AIDS/SIDA nas nossas comunidades.

Neste roteiro, uma mulher que vive com HIV argumenta que não ensinar aos jovens sobre o sexo e a sexualidade pode levar à difusão do HIV e ter outras consequências negativas. Outro entrevistado fala sobre a necessidade de ensinar aos jovens sobre o sexo e a sexualidade nas nossas escolas, residências e instituições religiosas.

Este é obviamente uma questão “quente” ou controversa. O que a sua audiência pensa sobre isso? Como radialista, você pode contribuir com soluções comunitárias para essas questões transmitindo este roteiro e outros programas sobre o tema. Você poderá querer seguir o roteiro com um programa de chamadas telefônicas para que os ouvintes expressem suas opiniões sobre as questões levantadas no roteiro.

Este roteiro é baseado em entrevistas reais. Você poderá usar este roteiro como inspiração para pesquisar e escrever um roteiro sobre a sexualidade e os jovens na sua própria região. Ou você poderá decidir produzir este roteiro na sua emissora, usando radioatores para representar as pessoas. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas originalmente envolvidas nas entrevistas.

Se decidir usar este roteiro como material de base ou como inspiração para criar o seu próprio programa sobre jovens e sexualidade, você poderá considerar as seguintes questões:

  • Existe algum ensinamento sobre sexo e sexualidade (seja ensinamento direto ou indireto) em instituições religiosas na sua área de audiência? Se houver, qual é o ensinamento? Se não houver, por quê? As instituições religiosas deveriam ensinar aos jovens sobre sexo e sexualidade?
  • As escolas ensinam aos jovens sobre sexo e sexualidade? Na opinião dos ouvintes, qual é o papel principal das escolas sobre o ensino de sexo e sexualidade para os jovens?
  • Em qual idade os jovens devem aprender sobre sexo e sexualidade? Quais aspectos de sexo e sexualidade devem ser discutidos? Quais aspectos não devem ser discutidos?

Não se esqueça de coletar as opiniões dos próprios jovens sobre essas questões.

O tempo de condução médio para este roteiro é de cerca de dez a doze minutos.


Roteiro:

Apresentador: Olá, ouvinte, meu nome é Dominic Mutua Maweu. (Pausa) Hoje eu gostaria de analisar como saber sobre sexo e assuntos relacionados pode ajudar os nossos jovens a manterem-se livres do HIV. Na minha pesquisa, tive a grande sorte de encontrar uma mulher que vive com HIV e se voluntariou para treinar as pessoas a serem “embaixadores da esperança” para outras pessoas que vivem com HIV nas aldeias. Quero contar que todos nós podemos ser embaixadores da esperança. Você só precisa visitar o Centro de Testes e Aconselhamento Voluntário mais próximo e fazer o teste de HIV para conhecer sua situação. Você só pode ser um embaixador da esperança se souber se é portador ou não de HIV.

Uma coisa em que essa mulher acredita é que os nossos jovens devem aprender tudo sobre sexo. Eu gostaria que ela se apresentasse e fornecesse um pequeno testemunho sobre como ela descobriu que estava infectada com HIV, que idade ela tinha e o que estava acontecendo na sua vida naquela época. Bem-vinda!

Júlia: Meu nome é Júlia Wambui Maina. Vim do Distrito de Nyeri, na província central do Quênia. Em 1994, eu encontrei um homem jovem e tivemos um casamento muito grande e colorido na igreja. Depois decobrimos que eu tinha problemas para conceber crianças. Em 1997, o meu médico me aconselhou a fazer exame de sangue porque eu estava me sentindo fraca. Foi quando eu descobri que estava vivendo com HIV. Eu tinha cerca de 24 anos de idade. Mas eu suspeito que posso haver me infectado quando tinha cerca de 20 ou 21 anos de idade. Depois disso, as coisas não ficaram boas com o nosso relacionamento. Acabamos decidindo nós dois fazermos o teste de HIV. O meu resultado foi positivo, mas o do meu marido foi negativo. Dali as coisas ficaram piores, até que nos separamos.

Apresentador: Então vocês se separaram porque você estava vivendo com HIV?

Júlia: Sim. Sabe, naquele tempo, nós não sabíamos que duas pessoas podiam ficar juntas quando uma delas estava vivendo com HIV. Ele decidiu que não podia ficar comigo, então ele me deixou e continuou o seu caminho.

Apresentador: Vocês ainda estavam tentando ter um filho quando se separaram?

Júlia: Não. Eu já havia tido uma filha quando estava na escola, embora não tivesse namorado. Eu fiquei grávida só com brincadeiras de criança. Então parei de tentar ter uma criança e decidi dedicar mais atenção à minha saúde. Também a minha fé religiosa não me permitia sair com todos os homens.

Apresentador: Depois de passar por tudo isso, agora você dedica o seu tempo a treinar outras pessoas a serem embaixadores da esperança. Como isso aconteceu?

Júlia: Depois que fiz o teste e soube minha situação, fiquei muito tempo no estágio de negação. Fiquei em estado de choque. Achei que minha vida havia acabado. Eu me perguntava por quê peguei o vírus… mas não conseguia encontrar nenhuma razão. Depois, quando percebi que não estava morrendo como eu esperava, decidi tentar ajudar meus jovens colegas e mulheres e até os cidadãos do meu país. Quero ter certeza de que os jovens não continuem se infectando.

Os jovens são quem têm mais risco de HIV e AIDS. Tenho agora 32 anos de idade, mas fui infectada quando era jovem. As estatísticas que temos dizem que a maioria de nós que pegamos esse vírus está se infectando ainda muito jovem.

Apresentador: Como uma jovem que passou por essas experiências que resultaram em ser mãe ainda na escola e infectar-se com HIV, que conselho você pode dar aos jovens e à comunidade como um todo?

Júlia: Na minha opinião, o ensino nas nossas igrejas e mesquitas deveria sofrer mudanças drásticas. Nós dizemos aos jovens que o intercurso sexual é pecado, mas, quando estamos com amigos da nossa idade, eles dizem que o sexo é a única forma de provar que eles são mesmo meninos ou meninas.

Então, para nos prepararamos psicologicamente a nossa juventude, precisamos ensinar a eles sobre sexo. Precisamos misturar nossos ensinos religiosos com ensinos sobre sexualidade. A sexualidade tem tudo a ver com os sentimentos, atitude e valores que são parte das relações sexuais. Se deixarmos de contar tudo isso e eles aprenderem sobre sexo por si próprios, eles podem aprender da forma errada. É melhor que nós os preparemos, para que o sexo não seja algo novo quando for apresentado a eles.

Apresentador: Existem certos mitos em que os jovens acreditam com relação a questões de sexo e sexualidade. Às vezes os jovens acreditam que, se uma menina permanecer virgem com vinte anos de idade, ela pode ter problemas para ter filhos. Às vezes os jovens dizem que, se você não tiver sexo, terá dores nas costas ou, quando alguém sonha com sexo, está possuído por um demônio. O que você comenta a respeito?

Júlia: Francamente, muitas coisas que não são verdadeiras têm sido ditas sobre a sexualidade. A verdade é que nada vai acontecer a uma menina, mesmo se ela ficar sem sexo até se casar com mais de 35 anos de idade. Este é o argumento que algumas pessoas usam quando querem provar que o sexo é parte da vida, esteja você casado ou não. Mas a verdade é que não há problemas mesmo se a mulher ficar sem sexo até ter mais de quarenta anos.

Na verdade, muitas coisas têm sido ditas para enganar as jovens. Temos que ensinar os nossos jovens sobre a sexualidade para que eles possam conhecer os seus corpos e as mudanças que vão enfrentar quando crescerem. Se esperarmos até que eles aprendam por si próprios, eles vão aprender com esses “professores” mal intencionados. Se ensinarmos aos jovens sobre a sexualidade, com o tempo teremos jovens responsáveis na nossa sociedade e no nosso país.

Apresentador: Muito obrigado. (Pausa) Bem, ouvinte, depois de ouvir estas palavras, eu quis saber mais sobre esse problema de juventude e sexualidade. Por isso falei com outro convidado. Vamos ouvi-lo agora. (Pausa) Bem-vindo e por favor comece dizendo o seu nome e profissão.

Michael Mutune: Obrigado. Meu nome é Michael Mutune e sou professor aposentado.

Apresentador: Há quanto tempo o sr. deixou de lecionar e o que faz agora?

Michael Mutune: Deixei de lecionar há dois anos e agora sou agricultor, homem de negócios e ancião da igreja.

Apresentador: O sr. acha que a educação sexual é importante nas nossas instituições de ensino, casas e centros religiosos?

Michael Mutune: Bem, este é um problema complicado há muito tempo. A falta de educação sexual entre os jovens trouxe muitos danos para a sociedade.

É chocante ouvir essas histórias nos meios de comunicação de meninas jovens que saem da escola porque ficaram grávidas. O caso mais recnte foi relatado este ano, em dez de junho, quando dezoito alunas da Escola Primária de Chepkurkur, em Monte Elgon, no Condado de Bungoma, descobriram que estavam grávidas e deixaram a escola.

No mesmo mês, na Escola Primária de Cheplanget, em Buret, Condado de Kericho, cinco meninas com 11 a 16 anos de idade saíram da escola por motivos similares.

Isso pode não ser considerado uma questão importante porque agora elas podem voltar à escola depois do parto, mas e sobre HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis? E existem outras complicações relativas ao parto, especialmente para as meninas.

Apresentador: O que o sr. acha que deve ser feito para abordar esse problema?

Michael Mutune: O meu conselho é este: para abordar este problema, o país deve garantir que as meninas tenham acesso à educação, além de serviços e informações de saúde sobre sexo e reprodução. As pessoas agora estão aconselhando o governo a incluir educação sexual e saúde da reprodução nos currículos das escolas primárias, pois isso funcionou em outros lugares.

Também estou culpando a Comissão de Serviço dos Professores por não tomar ações fortes para refrear a gravidez de adolescentes causada por professores e funcionários das escolas.

Em vez de dar punições severas, eles simplesmente transferem os professores e os funcionários envolvidos. É muito preocupante que as pessoas flagradas impregnando meninas menores de idade sejam mantidas sem punição. Este é um chamado para os pais que foram acusados de negligenciar a responsabilidade de impor os valores morais corretos para os seus filhos.

Apresentador: Como líder da igreja, o sr. acredita que a igreja deveria ensinar sobre sexualidade?

Michael Mutune: Sim, deveria, mas é uma questão complicada. A igreja ensina a abstinência até o casamento, mas não devemos abandonar aqueles que pecam até a morte com HIV. A Bíblia diz que devemos amar-nos uns aos outros e isso deverá estender-se para aqueles que não seguem os ensinamentos da igreja.

Normalmente aconselho os jovens a aprender sobre sexo na igreja, mesmo o uso de preservativos. É muito preocupante que a igreja tenha um kit para pessoas que vivem com HIV, mas desaconselhe o uso de preservativos.

Embora não ensinemos diretamente a sexualidade para os jovens na nossa igreja, temos oficinas para informar aos jovens sobre HIV e AIDS/SIDA. É nessas oficinas que eles aprendem tudo, incluindo o sexo seguro e o uso de preservativos quando não podem ficar sem sexo.

Apresentador: E sobre os pais e outro parentes mais velhos nas nossas casas? É necessário que os pais falem com os jovens sobre sexo?

Michael Mutune: Sim e sempre foi necessário, mas agora as coisas mudaram. Aqueles que deveriam ensinar sobre sexualidade tornaram-se o problema.

Na nossa idade, os nossos tios, tias, avôs e avós eram aqueles que costumavam transmitir essas informações para os jovens, mas agora eles são os culpados. Alguma coisa precisa ser feita para resgatar a nossa juventude!

Apresentador: Bem, ouvinte, precisamos encerrar aqui por hoje. Existe claramente um espaço que precisa ser preenchido. Os nossos dois convidados acreditam que educar os nossos jovens sobre sexo e sexualidade antes que experimentem os mesmos problemas pode ajudar. Pedimos a você que pense nessas coisas. Que sugestões você tem? Até a próxima! Meu nome é Dominic Mutua Maweu, produtor e apresentador deste programa.


Créditos:

Contribuição de Dominic M. Maweu, freelancer, Rural Voices Africa.

Revisão: Busisiwe Ngcebetsha, Centro de Treinamento e Comunicações de Saúde, Cidade do Cabo, África do Sul.

Fontes de informação:

Entrevistas com:

  • Julia Wambui Maina, junho de 2006, Kibezi, Condado de Mkueni, Quênia.
  • Michael Mutune, cinco de agosto de 2013, Mtito Andei, Condado de Mkueni, Quênia.

Projeto realizado com apoio financeiro do Governo do Canadá, por meio do Ministério de Assuntos Externos, Comércio e Desenvolvimento (DFATD).


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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