Transmita a mensagem e não o vírus

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1° de julho de 2006, como parte do pacote de informações n° 78.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-78/pass-on-the-message-and-not-the-virus/.


Observações para as emissoras:

A quantidade de pessoas morrendo de AIDS/SIDA é alarmante. Embora o vírus esteja destruindo comunidades inteiras, algumas pessoas estão achando difícil acreditar que a doença é real. HIV/AIDS-SIDA é visto como “veneno lento” e muitas vezes é justificado como sendo bruxaria. Algumas pessoas acham que é castigo de Deus. No radioteatro que se segue, os moradores de uma aldeia ficam frente a frente com a realidade, que a AIDS/SIDA é real e mata.

Como sempre, adapte o roteiro usando música e informações que sejam relevantes para a sua situação local.


Roteiro:

Personagens:

  • Narrador
  • Ma Biy – esposa de Pa Ngong
  • Pa Ngong – marido de Ma Biy
  • Tah – amigo de Pa Ngong
  • Lamfu – líder do fórum de mobilização masculino (MMF)
  • Enfermeira – enfermeira do Centro de Saúde
  • Ma Nkem – mulher de luto
  • Joe – porta-voz da aldeia
  • Fooy – mulher grávida com AIDS/SIDA
  • Fon – administrador idoso tradicional

Narrador: Bem-vindo ao nosso programa. O título do radioteatro de hoje é “Transmita a Mensagem e Não o Vírus”. Salientamos que, embora o nosso radioteatro seja uma história e não fale sobre pessoas reais em uma aldeia de verdade, as situações ilustradas são muito reais.

Música: John Minang sobre HIV/AIDS-SIDA. Vinte segundos, depois desaparece.

Som de bebê chorando. Passos se aproximam e batida na porta.

Ma Biy: Pa Ngong! Onde você está? Onde está você, meu marido? Tenho más notícias.

Pa Ngong: O que é, mulher? As pessoas não param de fofocar nesta casa?

Ma Biy: Ahn? Dá para acreditar que o filho de Bonjeh, aquele que trabalha perto da nossa fazenda de café no vale de Ngham, se foi? Ele… ele morreu. Ele morreu no litoral trabalhando como operário.

Pa Ngong: Cale-se! Quem contou?

Ma Biy: Ma Nkem. Ele morreu de SIDA.

Tah:(fora do microfone) O que está acontecendo aqui? Por que vocês estão brigando, Ngong?

Pa Ngong: Más notícias sobre o filho de Bonjeh.

Tah: (fora do microfone) O que aconteceu?

Pa Ngong: Pergunte à minha esposa!

Tah: (chamando) Biy! Biy! Venha aqui – o que aconteceu?

Ma Biy: (chorando e soluçando) Más notícias… Ngum morreu ontem em…

Tah: Oh! (batendo palmas) Veneno lento, de novo.

Pa Ngong: Precisamos nos vingar. Alguém matou aquele garoto porque ele era rico.

Tah: Ele veio para casa se casar e deixou sua esposa aqui dois meses atrás. (Suspira) Pobre garota! Ela provavelmente logo vai ficar doente.

Ma Biy: Antes de sair daqui, ele estava infectado com SIDA.

Pa Ngong: (com raiva) Saia daqui, saia! Isso é fofoca! Você acha que a enfermeira sabe mais que o nosso oráculo em Lumetu?

Tah: Vamos, Ngong. Precisamos discutir isso com os outros homens.

Música sobe lentamente. À medida que a intensidade aumenta, sobem os sons de palmas, música e comemoração. Depois, ela diminui.

Lamfu: (voz aguda e vibrante) Bem-vindos a este fórum de desenvolvimento. (Reações de aprovação ao fundo) Todos vocês de Oku são abençoados pela medicina tradicional. Temos tantas ervas no Lago Oku que poderíamos travar uma guerra! (Vivas ao fundo) Na semana que vem, vamos começar a cavar a estrada para Elak e Feling, então preparem-se! Depois de um pouco de dança, vamos ter novidades e depois mais vinho!

Música, dança e gritos sobem e depois diminuem.

Lamfu: Quem tem notícias sobre o desenvolvimento desta aldeia?

Vozes fora do microfone: (cochichando alto) Pa Ngong tem uma questão.

Lamfu: Diga, Ngong! (Alto) Parem com o barulho! (Música desaparece)

Pa Ngong: O fiho de Ma Bonjeh não… não… não está mais conosco. Ele morreu no litoral, segundo minha esposa. O pessoal da saúde diz que foi SIDA.

Silêncio por alguns segundos, depois alguém pigarreia.

Voz de homem: É feitiçaria… veneno lento. Não posso acreditar – aquele menino era muito rico… Deve haver sido morto para tomar sua esposa e…

Segunda voz de homem: (interrompendo) Sim! Os deuses da aldeia podem estar zangados. Precisamos consultar os deuses para descobrir as causas da morte do menino.

Ruído e discussões.

Lamfu: Silêncio! Silêncio! Vamos todos para casa! Vou falar pessoalmente com o pessoal da saúde.

Sons de vozes se dispersando em várias direções.

Música: sobre AIDS/SIDA. Quinze segundos, depois desaparece.

Lamfu: Enfermeira, enfermeira… você está aí? A estrada para Mbam é muito longa.

Enfermeira: Quem é? Pa Lamfu, é você? Entre! Como estão as pessoas e a sua fazenda?

Lamfu: (aproximando-se do microfone) Melhor! Obrigado pela cadeira.

Enfermeira: Tome um pouco de refrigerante.

Lamfu: Enfermeira, por que você está enganando o nosso povo? Por que você precisa fazer fofoca quando as pessoas morrem? Você está fazendo nossas esposas teimarem e mentirem.

Enfermeira: O que eu fiz ou falei para causar isso?

Lamfu: Quem disse que Bonjeh, o filho de Ngham, morreu de SIDA?

Enfermeira: (rindo) Bem, não é minha função responder sim ou não. Mas muitas pessoas estão morrendo.

Lamfu: Por que você está falando tanto sobre isso para as nossas esposas e outras pessoas?

Enfermeira: Essa doença não tem cura. Nem os médicos tradicionais perto do Lago Oku podem curá-la. Ela está matando milhares de pessoas. Se você dormir com mais de uma mulher, pode pegar a doença.

Lamfu: Eu… eu… espero que você não esteja falando de Fon, nosso líder, que tem 120…

Enfermeira: (interrompendo) Não, não! Ele precisa ficar só com elas e elas devem ficar só com ele. Você sabia que, no ano passado, 413 pessoas morreram de SIDA em Oku, 304 estão infectados e a maioria deles é de jovens? Se você duvida da minha palavra, Pa Lamfu, venha e vamos visitar alguns pacientes.

Lamfu: Sim, vamos lá!

Som de porta fechando, pausa e batidas persistentes.

Nkem: Sim… entrem! Bem-vinda, enfermeira!

Enfermeira: Como você está hoje?

Nkem: Melhor. Tenho comida, mas não tenho remédios… meu marido ainda está no litoral e não tenho mais meu filho…

Lamfu: (consternado) Ohhh…

Nkem: (soluçando) Soube que o meu marido também está doente… Estou morrendo de malária a cada dia.

Enfermeira: Venha amanhã para a clínica e daremos alguns remédios.

Lamfu: (nervoso) Sim, vamos!

Som de porta fechando

Lamfu: (gritando) O Doutor Bakum, o médico tradicional, está tendo sexo com aquela garota doente cujo marido foi para o litoral.

Enfermeira: Sim, conhecemos outros médicos tradicionais que morreram assim.

Lamfu: (gritando) Xiiii! (Som desaparece enquanto ele corre)

Música sobre AIDS/SIDA, depois desaparece.

Lamfu: Por favor, filho, pegue o tambor e convoque uma reunião da aldeia! Você ouviu? Chame os homens, as crianças, mulheres, meninas… Queremos todos no palácio de Fon.

Joe: Sim, papai.

Som de bebê chorando, ruído de animais. Em seguida, sobe som de mulher chorando.

Ma Biy: O que foi? Qual é o problema?

Fooy: Estou… grávida e o médico disse que sou HIV positiva… (soluçando) Como posso convencer meu marido que outra gravidez pode acabar com a minha vida se ele é herbalista e não acredita que a SIDA existe?

Ma Biy: Calma… Você precisa de drogas antirretrovirais. A enfermeira diz que vai falar com as pessoas que fazem as drogas em breve. E tente convencer o seu marido que ele precisa fazer teste de SIDA e fazer sexo seguro. Só usar drogas antirretrovirais não é suficiente.

Joe: (alto e claro, como um anúncio para a cidade) Reunião hoje na casa do chefe da aldeia! Homens! Mulheres! Meninas e meninos devem comparecer!

Pausa seguida de ruído da aldeia se reunindo. Três palmas e o ruído desaparece.

Fon: Chamamos todos vocês aqui para ouvir a enfermeira. Ela vai contar por quê, nos últimos três anos, tantas pessoas estão morrendo nesta aldeia e por quê todos os nossos esforços tradicionais fracassaram. Sra. enfermeira?

Enfermeira: Mbeh’ (saudação tradicional para um administrador tradicional). Vim dizer a vocês, povo de Oku, que a SIDA, ou Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, é real. Os que têm só uma esposa devem ficar só com ela. Se vocês não puderem ficar com uma esposa, usem preservativo. Muitos de nós estão morrendo por ignorância. A partir de hoje, não há mais justificativas. Se você está se casando, faça o teste de HIV/SIDA. O Centro de Saúde de Elak está fazendo testes voluntários gratuitos. (Insira aqui informações locais.) (Em voz forte) Transmitam a mensagem e não o vírus. (Saudações das mulheres no fundo)

Fon: Meu povo, vocês a ouviram. Vamos para casa e pedir aos nossos filhos que estão trabalhando no litoral que venham para casa e nos ajudem a lutar contra a pobreza e a SIDA.

Lamfu: (alto) Eu me rendi à minha esposa. (Alguns riem) Não é brincadeira! Vão para casa e cuidem-se!

Sons de vozes saindo em diferentes direções, diminuindo até o silêncio.

Ma Biy: Pa Ngong, espero que você tenha entendido a verdade hoje e não fale mais bobagens!

Pa Ngong: Vamos falar com as crianças e dizer a eles que a SIDA é real e feroz como um incêndio sem controle.

Ma Biy: Sim, meu marido. Bem, temos só uma coisa a fazer…

Ma Biy e Pa Ngong: Transmitir a mensagem e não o vírus.

Música sobe por alguns segundos e depois desaparece.

Narrador: Obrigado pela audiência. Até a semana que vem, neste mesmo horário, pela mesma emissora.


Créditos:

  • Contribuição de Aaron Kah, Abakwa FM, Camarões.
  • Revisão de Gladys Mutangadura, Comissão Econômica para a África, Lusaca, Zâmbia.

Agradecimentos:

  • Associação médica tradicional.
  • MMF – Fórum de mobilização masculina.
  • John Minang – música do álbum AIDS Kills.

Fontes de informação:

  • Centro de Saúde de Elak, Oku.
  • Grupo técnico provincial na luta contra HIV/AIDS-SIDA, Província do Noroeste, Camarões.
  • Dr. Ngum John, Hospital Batista Banso, P. O. Box 1, Bamenda, North West Province, Camarões.
  • Convenção Batista de Camarões.
  • União de Estudantes de Oku, P. O. Box 218, Bui, Camarões.

A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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