Agricultores de Fissel não recolhem a palha após a colheita: método que protege a terra do calor

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1° de agosto de 2008, como parte do pacote de informações n° 84.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-84/fissel-farmers-dont-pick-up-straw-after-harvesting-a-method-that-protects-land-from-heat/.


Observações para as emissoras:

A falta de chuva em algumas regiões do Senegal causa redução das colheitas. Fissel, uma comunidade rural situada no departamento de Mbour, região de Thiès, perto da zona de cultivo de amendoim, não é exceção a essa regra. Para ajustar-se a este fato, os agricutores introduziram métodos de cultivo para lidar com as mudanças climáticas. Na 9e édition de la Foire Internationale de l’Agriculture et des Ressources Animales Fiara (nona edição da Feira Internacional de Agricultura e Recursos Animais) que foi promovida no final de fevereiro de 2008 em Dacar, encontramos Ousseynou Gueye, chefe de programas da Fédération des Organisations non Gouvernementales FONGS Action Paysanne de Jig-Jam/Fissel (Federação das Organizações Não Governamentais ou ONGs de Ações Agrícolas de Jig-Jam/Fissel), que estava representando a sua comunidade nessa feira. Ousseynou nos explica os métodos usados pelos agricultores na sua localidade. Além disso, ele considera extremamente inadequado o auxílio concedido pelo governo para revigorar a agricultura naquela região, afetada pela seca desde a década de 1970. Também ouvimos Sidi Bâ, o conselheiro político da Cadre de Concertation des Producteurs d’Arachide (grupo de produtores de amendoim) nas regiões de Kaolack e Fatick Tamba.


Roteiro:

Apresentador: Sr. Gueye, que tipo de dificuldades enfrentam hoje os agricultores da comunidade de Fissel?

Ousseynou Gueye: Estamos enfrentando três dificuldades importantes. A primeira é a má condição do solo. Como você sabe, o solo vem sendo cultivado há anos e nada foi devolvido para o solo. Em outras palavras, os campos não são mais férteis. As árvores também desapareceram. Isso é causado pela atividade humana e pelo trabalho da natureza. Também é muito difícil encontrar sementes de qualidade. O nosso equipamento também precisa de reparos. Estas são as dificuldades enfrentadas atualmente pelos agricultores na comunidade rural de Fissel.

Apresentador: Os agricultores recebem auxílio do governo para ajudá-los com o seu trabalho?

Ousseynou Gueye: A semente fornecida pelo governo para os produtores não é semente de qualidade, nem é fornecida em quantidade suficiente. Os insumos agrícolas são quase impossíveis de encontrar, apesar de serem subsidiados pelo Estado. O Estado também subsidia os equipamentos agrícolas, mas muito pouco. Em uma comunidade rural, a chegada de trinta máquinas, trinta enxadas ou vinte carroças representa quase nada para uma população de trinta a quarenta mil habitantes. Ninguém está dizendo que o Estado não faz nada, mas o Estado precisa envolver-se mais no incentivo à agricultura nesta região.

Apresentador: Estamos vendo mudanças cada vez mais frequentes do clima. Como vocês conseguem cultivar normalmente com essas circunstâncias?

Ousseynou Gueye: Com relação às mudanças climáticas, temos duas possibilidades e estamos fazendo as duas. Em primeiro lugar, as famílias podem trabalhar em um terreno pequeno, no qual é fácil administrar bem a terra e a água. Quando as famílias cultivam esse pedaço pequeno de terra, elas podem colher alimento suficiente para a família, mesmo se os produtos que eles cultivam em pedaços de terra maiores fracassarem devido às mudanças climáticas ou outros problemas. A segunda solução é o reflorestamento. Você sabe que todas as nossas florestas desapareceram. Realmente precisamos pensar em reflorestamento. Nós temos um método de reflorestamento. Nós plantamos árvores em locais próximos, em volta das extremidades do campo. Essas árvores protegem o solo e as safras contra o calor e o vento. Existe também uma terceira solução. Após a colheita, nós não retiramos a palha. Nós a deixamos sobre o campo para proteger o solo do calor.

Apresentador: Fissel está localizada em uma zona muito seca. Que tipo de produtos vocês cultivam?

Ousseynou Gueye: Nessa região, nós cultivamos produtos de milheto que possam suportar essas condições. Existe também o amendoim, mas ele está lentamente desaparecendo. Ele está desaparecendo porque existe um grande número de produtores que não possuem muita semente. Também temos produtos alternativos como a melancia, hibisco (nota do editor: Hibiscus sabdariffa, provavelmente mais conhecido como “rozelle” na África ocidental de fala inglesa) e mandioca. A mandioca consegue crescer nesse solo, além da planta de sorgo, que também gosta de solo duro e seco.

Apresentador: Vocês também praticam o cultivo de produtos sobre a mesa.

Ousseynou Gueye: Para o cultivo sobre a mesa, pegamos uma mesa com quatro metros de comprimento por dois metros de largura e a cobrimos com areia e dejetos animais. É fácil de regar e você economiza tempo. Você coloca a mesa na sombra. Assim as plantas são protegidas do sol, mesmo se houver plantas que precisem de calor. Mas os raios do sol que vêm através das árvores atingem diretamente a mesa. Este tipo de agricultura nos permite ter boa alimentação, especialmente com legumes e verduras.

Apresentador: Vamos ouvir agora Sidi Bâ, o conselheiro político do grupo de produtores de amendoim das regiões de Kaolack e Fatick Tamba. Sr. Bâ, como o sr. acha que os agricultores vão trabalhar considerando as mudanças climáticas?

Sr. Bâ: Muitas pessoas acreditam que o crescimento da população e os riscos climáticos são as causas da crise agrícola senegalesa. A isso, você precisa agregar os atrasos técnicos enfrentados pelos agricultores e sua falta de espírito empresarial. Alguns culpam o Estado por interferir no mercado.

Todas essas razões são reais, mas elas não são os motivos principais da crise. A seca não é um fenômeno novo no Sahel. As secas não são mais frequentes hoje do que eram durante as últimas três décadas. Embora o Senegal tenha experimentado queda significativa do total de chuvas durante a década de 1970, não houve declínio nos últimos vinte anos.

Apresentador: Isso é muito surpreendente. O que causou as mudanças do padrão de chuvas observadas pelos agricultores?

Sr. Bâ: A distribuição da chuva tornou-se mais errática e isso afetou alguns produtos e variedades mais do que outros. Também precisamos considerar a contribuição humana sobre as mudanças climáticas. Alguns cientistas afirmam que o desflorestamento massivo no oeste da África desde o início do século é uma causa importante do aumento das secas. Precisamos também dizer que os efeitos da seca, como a erosão do solo, são mais dramáticos que no passado. Isso acontece porque a seca e outros eventos climáticos estão agindo sobre ambientes nos quais foram rompidos muitos equilíbrios ecológicos pelos modernos sistemas de agricultura e criação de animais.

Apresentador: Sr. Bâ, quais métodos estão sendo usados para lidar com as mudanças climáticas?

Sr. Bâ: Os sistemas atualmente adotados no Senegal são tradicionais de um lado e modernos de outro, dependendo da região e do produto. Muitos cientistas estão se voltando agora para métodos como: pousio, aumento do pousio, uso de fertilizante orgânico, sementes que são adequadas para áreas agrícolas específicas, rotação de safras, diversificação de safras, integração do florestamento à agricultura, administração eficiente da água, uso de plantas como adubo verde, uso de linhas de pedras, cultivo em fitas ao longo do contorno das encostas e reciclagem dos restos das safras.

Apresentador: Sr. Bâ, quais são as consequências dessas dificuldades que estamos experimentando nas áreas rurais?

Sr. Bâ: Elas levam as pessoas a migrar para áreas urbanas, o que hoje significa transferência de pobreza, pois as possibilidades de encontrar emprego com pagamento adequado nas cidades são muito limitadas. Mesmo se essa migração puder reduzir as pressões sobre o ambiente e possivelmente aumentar a renda das famílias, ela reduz a mão de obra nas áreas rurais. Isso gera redução da produção agrícola e um círculo vicioso que poderá terminar na destruição do setor agrícola.

Apresentador: Obrigado, Sr. Bâ. Você ouviu os tipos de métodos sendo usados na agricultura como adaptação às mudanças climáticas. O Sr. Gueye falou sobre alguns dos produtos e métodos que ele usa como agricultor. O Sr. Bâ mencionou outros métodos e nos relembrou as consequências das dificuldades contínuas do setor agrícola no Senegal. Esperamos que essas palavras ajudem você a entender a importância de adaptar-se às mudanças climáticas e o inspirem a tomar ações positivas. Obrigado pela audiência e até a próxima.


Créditos:

Contribuição de Mariama Sy Coulibaly, Jornalista, Rádio Convergence Panafricaine, Senegal.

Revisão: John Fitzsimons, Professor Associado, Escola de Projetos Ambientais e Desenvolvimento Rural, Universidade de Guelph, Canadá.


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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