Verifique se as ferramentas e cargas de trabalho são adequadas para as crianças

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1° de dezembro de 2003, como parte do pacote de informações n° 69.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-69-a-world-fit-for-children/make-sure-tools-and-workloads-are-appropriate-for-children/.


Observações para as emissoras:

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança tornou-se um tratado de direitos humanos ratificado universalmente que procura proteger as crianças contra a realização de qualquer trabalho que seja perigoso e/ou de exploração, prejudicial para o seu desenvolvimento físico, mental, espiritual ou social ou que interfira com o seu direito à educação. Crianças que trabalham por muitas horas ou em condições de risco têm negados esses direitos. Dois outros tratados internacionais amplamente ratificados, a Convenção de Idade Mínima n° 138 e a Convenção sobre as Piores Formas de Trabalho Infantil n° 182, estabelecem padrões relativos ao trabalho infantil e às condições de trabalho de trabalhadores jovens.

O objetivo do roteiro abaixo é sensibilizar agricultores, famílias de crianças em risco e a comunidade em geral sobre as condições inseguras sob as quais as crianças muitas vezes trabalham nas fazendas. Como complemento ao radioteatro, você poderá entrevistar um especialista em questões de trabalho infantil que poderá explicar o trabalho e as cargas de trabalho que são apropriadas para as crianças.

A indústria do cacau e do chocolate, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e os governos locais e nacionais estabeleceram projetos piloto de educação dos agricultores sobre práticas seguras de cultivo, legislação trabalhista e condições de trabalho apropriadas para as crianças. Procure informações sobre esses projetos no seu distrito.


Roteiro:

Personagens:

  • Eric:dez anos de idade.
  • Alike:sete anos de idade.
  • Mãe de Eric e de Alike.

Música sobe, mantém-se por cinco segundos e diminui sob o apresentador

Apresentador: Crianças em todo o mundo trabalham para ajudar suas famílias de formas que não são prejudiciais. Mas milhões de outras crianças, algumas com até cinco anos de idade, trabalham por longas horas, muitas vezes em condições perigosas e prejudiciais à saúde. Elas andam por longas distâncias carregando cargas pesadas, manuseiam máquinas e ferramentas perigosas ou usam pesticidas tóxicos. O trabalho dessas crianças muitas vezes interfere com o seu desenvolvimento físico, mental e social.

Por isso, as leis nacionais e internacionais determinam que crianças com menos de 14 anos de idade deverão fazer apenas trabalhos leves e as crianças com menos de 12 anos não devem trabalhar, exceto para ajudar na família. Além disso, nunca se deverá permitir que crianças com menos de 18 anos de idade façam trabalhos perigosos, como trabalhar com ferramentas pontudas ou substâncias químicas.

O programa de hoje é sobre os perigos enfrentados pelas crianças que trabalham nas fazendas. Eric é um menino com dez anos de idade que trabalha em uma fazenda de cacau no oeste da África. Às vezes ele precisa fazer trabalho e usar ferramentas que são grandes demais para um garoto pequeno. Alike é a irmã mais nova de Eric. Mas esta história não fala apenas sobre Eric e Alike e também não trata só do cultivo de cacau. Ela é apenas um exemplo de trabalho e condições de trabalho inadequadas para as crianças.

Música sobe, mantém-se por três segundos e diminui sob o apresentador

Eric: (Para a audiência) Estou assustado! Muito assustado! Aconteceu alguma coisa hoje que congelou o meu corpo e me paralisou até que o capataz gritasse para que eu voltasse ao trabalho. E ele me deu um soco no peito. A dor me despertou de volta.

Ah, sim! Meu nome é Eric e tenho dez anos de idade. Eu trabalho em uma fazenda de cacau e faço tudo o que o capataz me manda fazer.

Música sobe, mantém-se por três segundos e diminui sob a cena

Alike: Eric, qual é o problema? Você está tremendo. Você está doente?

Eric: Eu quero falar com o papai, Alike. Onde ele está?

Alike: Ele ainda está no campo. O capataz estava com raiva porque a mamãe está lenta por causa da gravidez. Você sabe que ele sempre quer que as pessoas trabalhem mais rápido quando o café está pronto para a colheita. Então ele mandou a mamãe para casa mais cedo e fez o papai trabalhar mais tempo no lugar dela. A mamãe está dormindo, então você precisa falar comigo.

Eric: Você só tem seis anos. Você não vai entender problemas de gente grande.

Alike: Eu sou uma garota crescida e vou para a escola. Quando você vai para a escola, você entende muitas coisas. E você tem só dez anos. Você não é gente grande.

Eric: Eu trabalho todo o tempo como os adultos, qual é a diferença?

Alike: Você recebe muito menos dinheiro que eles.

Eric: Sim. E acho isso injusto porque eu trabalho desde que o sol nasce até o final da noite, como eles fazem. E faço o mesmo trabalho.

Alike: Agora conte o seu problema. Na escola eu aprendo a resolver problemas de matemática, então sei que posso ajudar com o seu.

Eric: A escola ensinou você a se virar, com certeza. Está bem, vou contar o que aconteceu.

Música sobe, mantém-se por dois segundos e diminui lentamente sob a cena

Eric: Hoje precisei carregar as cargas de grãos de cacau colhidos para processamento na fazenda principal. Cada viagem para a fazenda principal, com as cargas pesadas, leva quarenta minutos. A viagem de volta é mais curta e eu sempre faço correndo. (Pausa) Eu havia feito quatro viagens, de ida e de volta, desde que comecei a trabalhar às cinco da manhã e o sol estava alto no céu. Estava quente, eu fiquei cansado e só parei para beber água uma vez. As minhas costas estavam doendo, mas eu tentei não pensar nisso, pois ainda tinha muitas horas de trabalho.

Você se lembra do Thomas, aquele menino fraco que trabalha conosco? Bem, ele estava colhendo vagens de cacau das plantas com os outros meninos mais novos. Eles também estavam no campo desde o amanhecer e todos estavam com muito calor e cansados.

Especialmente Thomas; ele está sempre meio doente, mas ainda precisa vir trabalhar. Bem, esta manhã eu notei que ele parecia mais fraco que de costume e ficava cambaleando. (Pausa)

Na minha quarta viagem de volta para o campo, de repente ouvi os meninos gritando. Eu larguei minha sacola e corri o mais rápido que pude. Eu não vi o acidente, mas cheguei lá assim que aconteceu. Parece que o Thomas havia balançado o seu facão e a lâmina cortou o braço do François. Quando eu cheguei, François estava deitado no chão com o sangue jorrando alto no ar, molhando as vagens de cacau das plantas. Os homens estavam lá também. Um deles amarrou um pedaço de pano em volta do seu braço para interromper o fluxo de sangue, pegou o menino e o levou embora.

Alike: O que vai acontecer com ele? Ele vai morrer perdendo todo o sangue?

Eric: Eu não sei. Ninguém disse nada. É o terceiro acidente este mês, Alike, o segundo com um facão. Outro menino torceu as costas carregando uma carga pesada de grãos de café. Eu vi acontecer e ele estava com muita dor. Isso sempre acontece na época da colheita e sempre com as crianças, nunca com os adultos.

Alike: Isso acontece porque as costas das crianças não são tão fortes para carregar sacos pesados. Às vezes eu me preocupo com você, Eric.

Eric: Eu tento ter muito cuidado e olho aonde estou indo. Mas, às vezes, no calor da tarde, quando estou cansado e com calor, é fácil errar o passo e torcer o tornozelo ou as costas.

Alike: Eu torci meu tornozelo no ano passado e toda a água que eu estava carregando espirrou para o chão. Isso doeu muito. Mas o capataz não ligou. Ele só ficou zangado porque eu derrubei a água e ele não podia beber.

Eric: Alike, eu esqueci que até uma garota pequena como você precisa fazer trabalho pesado. Trazer água para os campos, mesmo só duas vezes por dia, deve ser difícil para você. Aqueles jarros são muito pesados.

Alike: É verdade. Eu sou pequena e o jarro é pesado. Mas o que eu gosto é de poder ir para a escola entre as minhas idas para o campo.

Eric: Bem, estou feliz por você, mas um pouco triste comigo mesmo. Eu trabalho do amanhecer até o final da noite e ainda mal ganho para ajudar a nos alimentar. Não tenho tempo para ir para a escola. (Pausa) Mas vou contar um segredo.

Alike: Posso contar para a mamãe e o papai?

Eric: Não. Um segredo você não pode contar para ninguém. (Pausa) O meu maior sonho é que um dia também vou poder ir para a escola. Quero aprender a ler e escrever. Então vou me tornar um médico famoso e ajudar todas as pessoas doentes. Vou poder até consertar o braço do François.

Alike: Quando eu crescer, vou ser professora. Então vou poder ler os livros o dia inteiro, sempre que quiser.

Eric: Então você não se importa de precisar correr entre a escola e o campo?

Alike: Não, eu também me sinto adulta, ganhando dinheiro e ajudando a família. A maioria dos meninos e das meninas da minha classe trabalha algumas horas por dia, ajudando os pais na fazenda da família. Mas eu queria ter trabalhos como os que eles fazem. Eles não podem usar facões e não precisam carregar cargas pesadas.

Eric: Eu também não me importo de ter que trabalhar. É só que… você sabe, não tenho chance de aprender nada de interessante como você e também nunca consigo jogar futebol. O meu outro sonho é ser um jogador de futebol famoso e jogar por Camarões. O nosso time é o melhor do mundo!

Mamãe: Eric, Alike, vocês estão aí?

Alike: A mamãe acordou. Vamos contar a ela sobre o braço do François.

Música sobe, mantém-se por três segundos, diminui e desaparece

Apresentador: Chegamos ao final do radioteatro de hoje sobre crianças que trabalham na agricultura. Esta história levanta questões sobre crianças que usam ferramentas perigosas, como facões. Ela também levanta questões sobre cargas de trabalho muito grandes para as crianças, como cargas pesadas de grãos de cacau e jarros de água. Se você pedir aos seus filhos para ajudar no campo ou na casa, lembre-se de que os corpos deles ainda estão crescendo e que você não deverá fazer com que eles façam mais do que possam conseguir com segurança.


Créditos:

Contribuição de Christine Davet, Toronto, Canadá.

Revisão de Joost Kooijmans, Organização Internacional do Trabalho – Programa Internacional de Eliminação do Trabalho Infantil, Genebra, Suíça.

Fontes de informação:

Study into Child Labour in the Cocoa Sector in West Africa. Conduzido pelo IITA (http://www.ita.org) e coordenadores nacionais de pesquisa em Camarões, Costa do Marfim, Gana e Nigéria.

BCCCA Position Paper on the Study into Child Labour in the Cocoa Sector in West Africa. The Biscuit, Cake, Chocolate & Confectionery Alliance (BCCCA), 37 – 41 Bedford Row, London WC1R 4JH. Fone: 020 7404 9111 – Email:office@bccca.org.uk

Organização Internacional do Trabalho – Programa Internacional de Eliminação do Trabalho Infantil.
Fone:  +41 22 799 8181
Fax: +41 22 799 8771
Email: ipec@ilo.org

Conferência Internacional sobre Trabalho Infantil. Oslo, 27 a 30 de outubro de 1997:

  • Relationships between Education and Child Labour
  • Education and Child Labour
  • Social Mobilization and Child Labour
  • Social Mobilization and Child Labour
  • Strategies for Eliminating Child Labour: prevention, removal and rehabilitation

Fundo das Nações Unidas para a Criança (UNICEF), Nova Iorque


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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