Produção agrícola na África muda para adaptar-se às mudanças climáticas

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1° de agosto de 2008, como parte do pacote de informações n° 84.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-84/changing-farming-production-in-africa-to-adapt-to-climate-change/.


 

Observações para as emissoras:

Os agricultores africanos estão enfrentando novos desafios apresentados pelas mudanças climáticas, incluindo o regime de chuvas, cada vez mais imprevisível. Mas muitos agricultores africanos começaram a encontrar estratégias para adaptar-se a esta situação.

Em Togo, por exemplo, onde os agricultores tradicionalmente cultivam milho sobre os planaltos, eles diversificaram sua produção e estão cultivando arroz nas áreas mais baixas, mesmo durante a estação seca. Como não recebem apoio financeiro externo para sobreviver, eles dependem da fertilidade natural do solo nas áreas mais baixas. O solo naturalmente rico permite aos agricultores produzir seis toneladas por hectare no primeiro ano, mas este alto rendimento não pode prosseguir por muito tempo sem boa administração. Para fortalecer as capacidades locais e reverter a rápida erosão dos recursos naturais como solo fértil, o Centro Africano para o Arroz (WARDA) desenvolveu uma abordagem de treinamento denominada Pesquisa de Ação e Aprendizado Participativo (PLAR), que se dedica à administração de recursos naturais em áreas mais baixas. Esse treinamento aumenta a produtividade de arroz e outros produtos nas áreas mais baixas.

O roteiro abaixo é baseado em um relatório da abordagem de treinamento do Centro Africano para o Arroz. Ele explica como os agricultores podem adaptar-se às mudanças climáticas sem o apoio de iniciativas de pesquisa.

O roteiro é apresentado na forma de entrevista entre um radialista e um agente de extensão rural. Ele também descreve os benefícios das abordagens participativas sendo desenvolvidas pelo Centro Africano do Arroz junto aos agricultores.


Roteiro:

Apresentador: Bom dia, caro agricultor, e bem-vindo ao nosso programa semanal dedicado à agricultura. Obrigado pela audiência sempre crescente desta sua emissora.

Hoje vamos discutir o que você pode fazer sobre a redução das chuvas. A escassez de chuvas é uma preocupação para você, não é? É por isso que temos hoje conosco o Sr. Kokou Bosso. Ele é agente de extensão rural. O Sr. Kokou Bosso tem alguns conselhos para ajudar você a lidar melhor com esta situação.

Aumento do volume da vinheta, que desaparece em seguida.

Apresentador: Bom dia, Sr. Kokou Bosso, e obrigado por estar conosco hoje.

Kokou Bosso: Bom dia.

Apresentador: Aqui na África, a agricultura depende das chuvas. Mas, infelizmente, estamos observando que não chove mais como antigamente e a estação úmida está ficando mais curta. Isso prejudica muito a produção agrícola e corremos o risco de sofrer fome. O que os agricultores devem fazer?

Kokou Bosso: É verdade. As chuvas não são mais como eram. Isso prejudica as atividades agrícolas e cria muita preocupação, não apenas para os agricultores, mas para todos, pois todos nós comemos e não podemos comer apenas o que os agricultores produzem. Por isso, os pesquisadores do Centro Africano para o Arroz conduziram pesquisas e encontraram métodos que permitem aos agricultores adaptar-se às mudanças climáticas. Tenha a certeza de que esses métodos não são desconhecidos dos agricultores. Pelo contrário, são abordagens tradicionais muito eficazes que estamos tentando relembrar.

Durante meu trabalho como agente de extensão, eu apresento aos agricultores formas de adaptação à seca, aumento da fertilidade do solo, como escolher quais produtos cultivar, a aplicação de outras inovações e como administrar melhor os recursos naturais.

Apresentador: Muito bem! Como os agricultores podem adaptar-se às condições de seca?

Kokou Bosso: Você sabe que existem tradicionalmente sinais de alerta que nos informam se a estação úmida será curta ou se a seca será longa. Os agricultores podem preparar-se para adaptar-se a uma seca que está por vir porque eles conhecem esses sinais.

Apresentador:É mesmo?

Kokou Bosso: Claro que sim.

Apresentador: Quais são esses sinais?

Kokou Bosso: Por exemplo, quando a estação do harmatã é longa (nota do editor: harmatã é um vento seco e empoeirado do oeste da África, que pode manter-se por alguns meses, de janeiro a abril) ou se os pássaros desaparecerem.

Apresentador: Como o desaparecimento dos pássaros pode ser um sinal de alerta de uma longa estação seca?

Kokou Bosso: Esta é uma ótima pergunta. Você sabe que os pássaros e outros animais podem detectar a presença da água e eles sempre migram para lugares onde possam encontrar água. Por isso, quando observamos o seu desaparecimento em uma região específica, podemos concluir que a chuva será escassa nessa região. Devo acrescentar que alguns países africanos agora estão começando a fornecer boletins meteorológicos sazonais, que também podem ser úteis.

Apresentador: Em resumo, podemos dizer que, quando a estação do harmatã é longa e não observamos sinais de nenhum pássaro no céu, isso indica que teremos uma longa estação seca ou chuvas leves. Quando os agricultores observarem essas indicações, o que eles devem fazer?

Kokou Bosso: Primeiro eles deverão administrar com cuidado seus estoques de grãos até as próximas chuvas. Isso os ajudará a evitar que consumam suas reservas de sementes.

Depois, quando começar a estação úmida, eles devem plantar variedades de sementes que amadureçam rapidamente. Isso será antes da estação chuvosa curta. Existem variedades de milho que amadurecem rápido que podem ser encontradas facilmente nos escritórios de extensão rural.

Além disso, os agricultores também deverão plantar sorgo da Guiné e grãos como soja para cobrir e fertilizar o solo. Eles precisarão escolher plantas que não precisem de muita água.

Apresentador: Os agricultores poderão plantar novas mudas de mandioca se houver uma longa estação seca ou pouca chuva?

Kokou Bosso: Não. A estação chuvosa será curta demais para que a mandioca sobreviva. Mesmo para outros produtos, os agricultores precisarão espalhar um pouco de compsoto e esterco de vaca no jardim para reter a umidade no solo. Eles terão que trabalhar muito para não perder tempo quando as chuvas começarem.

Apresentador: Os agricultores das aldeias onde você trabalha estão satisfeitos por adotar seu treinamento no Centro Africano para o Arroz?

Kokou Bosso: Claro que sim. Por exemplo, a nossa equipe trabalhou em Togo, na região de Kpalimé até Atakpamè. Em todas as regiões onde trabalhamos, podemos ver hoje que os agricultores estão se adaptando mais eficientemente aos distúbios climáticos. Para ser mais explícito, posso falar sobre duas aldeias, Kèlèkpè e Adéta.

Apresentador: O que aconteceu em Kèlèkpè?

Kokou Bosso: Em Kèlèkpè, existem muitas áreas baixas que são muito favoráveis para a agricultura. Mas os agricultores não sabiam que esses locais são uma alternativa para lidar com o problema da seca. Por várias razões, eles abandonaram as áreas mais baixas e cultivaram os planaltos, onde o solo foi desgastado pela erosão. E, ainda pior, quase todos eles cultivavam milho. Como o solo é pobre, a produção de milho é muito baixa. Ao longo da abordagem de pesquisa participativa, envolvendo os agricultores em todas as etapas da pesquisa, conseguimos mostrar a eles por quê o solo onde eles estão cultivando milho não está produzindo muito e que eles podem cultivar outros produtos além do milho. Assim eles puderam entender que era necessário colocar as áreas mais baixas em produção. Esse treinamento permitiu que eles fizessem melhor uso das áreas mais baixas e que eles produzissem mais. A partir dali, eles não apenas se diversificaram com o cultivo de outros produtos, mas também começaram a usar a água das áreas mais baixas por meio de um sistema de drenagem que permite que eles produzam arroz mesmo durante a estação chuvosa. O cultivo em áreas mais baixas permite que os agricultores tenham boa produção e limita os riscos experimentados pelos agricultores quando a chuva é pouca ou irregular. Os agricultores se entusiasmaram muito com o desenvolvimento agrícola da sua aldeia.

Apresentador:E na segunda aldeia?

Kokou Bosso: O mesmo aconteceu em Adéta, outra aldeia localizada na parte ocidental de Togo. Ali, também devido aos problemas de seca, conseguimos convencer um grupo de 32 mulheres agricultoras a plantar nas áreas mais baixas. Cada uma delas plantou meio hectare de terra. Elas estavam tendo problemas com o nivelamento do solo e infestações de ervas daninhas. Mas, com os novos conhecimentos que elas ganharam durante o treinamento, agora estão cultivando arroz durante a estação chuvosa e vegetais como quiabo, repolho, espinafre e vegetais tradicionais durante a estação seca. Elas gostam do que estão fazendo e estão conseguindo atender às necessidades básicas das suas residências.

Apresentador: Se entendi direito, as áreas mais baixas são muito boas para agricultura?

Kokou Bosso: Certamente. As áreas mais baixas são naturalmente muito ricas e boas para agricultura, pois elas recebem água corrente durante a estação das chuvas. Com o impacto das mudanças climáticas, elas estão mostrando ser muito importantes devido à fertilidade do solo e à disponibilidade permanente de água em regiões onde as chuvas são raras. Em todas as regiões onde fazemos este treinamento, estamos atraindo a atenção de agricultores para estes recursos naturais (solo fértil e boa água), para que possam fazer uso deles.

Apresentador: Fantástico! Sei que ainda há muitos conselhos para os agricultores que nos ouvem com muito interesse. O que mais o sr. gostaria de dizer?

Kokou Bosso: Para terminar, eu diria aos agricultores que é urgente a adoção de estratégias eficazes para lidar com os problemas que as mudanças climáticas estão apresentando.Além de tudo o que expliquei até aqui, os agricultores precisam plantar árvores, pois as árvores promovem chuvas. Os agricultores devem também reduzir as queimadas, fazer rotação das safras, construir diques de contorno em volta das fazendas para evitar cheias e erosão e administrar adequadamente as suas reservas de água. Assim, tudo irá melhorar e eles poderão produzir bem para alimentar a humanidade.

Aumento progressivo do volume da vinheta, depois cai e permanece sob a narração

Apresentador: Produzir bem para alimentar a humanidade. Muito bem, Sr. Kokou Bosso. É muito bom descobrir essas estratégias que o sr. apresentou hoje para análise e benefício dos nossos ouvintes. Obrigado por tudo o que o sr. está fazendo pelo desenvolvimento agrícola do nosso continente.

E para você, amigo ouvinte, espero que você tenha acompanhado as explicações do Sr. Kokou Basso com muito interesse e compreendido que você também pode usar essas estratégias para adaptar-se aos efeitos negativos das mudanças climáticas. Muito obrigado por estar conosco. Estaremos com você na semana que vem, no mesmo horário. Até lá!

Aumento do volume da vinheta e término


Créditos:

Contribuição de Houinsou Félix Sèdègnon, Rádio Immaculée Conception, Benin. Email: felixhouinsou@yahoo.fr.

Revisão: John Stone, Visitante, Centro Internacional de Pesquisa para o Desenvolvimento (IDRC), e Soklou Worou, cientista do solo, agrônomo e presidente da ONG AGIRNA (Apoio à Gestão Integrada e Racional dos Recursos Naturais), Togo.

Agradecimentos: Paul Van Mele, pesquisador e líder do Programa de Sistemas de Inovação e Aprendizado Rural, Centro Africano para o Arroz (WARDA); e Paul Kiepe, pesquisador e coordenador do Consórcio do Vale Inland, Centro Africano para o Arroz (WARDA).

Fontes de informação:

  • Africa Rice Centre (site).
  • Farm Radio International (site).
  • O Sr. Kokou Bosso é agente de extensão do Instituto Togolês de Divulgação.
  • Kèlèkpè e Adéta são duas aldeias localizadas em Togo, na região de Kpalimé e Atakpamé.

A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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