Agricultores de todo o mundo enfrentam as mudanças climáticas

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1º de agosto de 2008, como parte do pacote de informações n° 84.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-84/farmers-around-the-world-face-climate-change/.


 

Observações para as emissoras:

Está ocorrendo atualmente uma quantidade cada vez maior de fenômenos naturais completamente inesperados pelas comunidades rurais. Em algumas regiões, ocorrem cheias inexplicáveis. Em outras regiões, as comunidades são impotentes para combater a seca e a desertificação que estão ficando cada vez mais sérias dia após dia. Pesquisas científicas demonstraram que a maior parte desses fenômenos naturais é causada por atividades humanas tais como excesso de consumo e exploração excessiva dos recursos naturais, que prejudicaram o ecossistema e aumentaram as mudanças climáticas.
Este roteiro é baseado em histórias verdadeiras de agricultores em diferentes partes do mundo, que foram reunidas pela Amigos da Terra, uma ONG internacional envolvida na defesa dos direitos das comunidades. Estas histórias refletem os efeitos e impactos das mudanças climáticas sobre os agricultores da África, América do Sul e Austrália. O roteiro imagina que os agricultores conseguem comunicar-se entre si e com a emissora de rádio via Internet. Agricultura Eletrônica é um programa da Rádio Fanaka que ressalta as vantagens que a Internet poderá trazer para os agricultores. Imagine o que a Internet poderia fazer pelos agricultores da sua região se você pudesse conectá-los a agricultores em outros países na África e outros continentes. Deixe que este sonho oriente você e siga-nos neste ativo debate.


Roteiro:

Participantes:

  • Omou Coulibaly, produtor e apresentador de rádio.
  • Siaka Coulibaly, Presidente da União Comunitária das Sociedades Cooperativas da Comunidade de Tao (região de Koutiala), na voz de Dramane Tounkara, radialista.
  • Luís Ismael de Camargo Leme, agricultor de Araranguá, Santa Catarina (Brasil), na voz de Karamoko Traoré, radialista.
  • Julia Weston, produtora de mirtilos e cerejas, Fazenda Seaview, perto de St. Marys, Tasmânia, Austrália, na voz de Daouda Dembelé, radialista.

Intervalo musical de dez segundos

Oumou Coulibaly: O programa Agricultura Eletrônica de hoje lida com eventos climáticos e suas consequências sobre a vida das comunidades rurais. Como você mesmo já deve ter observado, a vida diária dos agricultores mudou completamente ao longo dos últimos anos. Essas mudanças devem-se, em sua maior parte, à busca dos agricultores por formas de adaptar-se às mudanças do tempo e do clima. Hoje, para relatar em primeira mão o que está acontecendo globalmente com os agricultores, convidamos para o nosso estúdio, pela magia da Internet, três agricultores de três continentes diferentes: o sr. Siaka Coulibaly, Presidente da União Comunitária das Sociedades Cooperativas da Comunidade de Tao (região de Koutiala), no Máli; o sr. Luís Ismael de Camargo Leme, agricultor de Araranguá, Santa Catarina, Brasil; e a sra. Julia Weston, produtora de mirtilos e cerejas da fazenda Seaview, perto de St. Marys, no Estado da Tasmânia, na Austrália. Pedimos a você, ouvinte, que entenda que estamos usando as vozes dos apresentadores da nossa rádio para dramatizar uma conversa que não aconteceu, mas que poderá acontecer no futuro próximo com a magia da Internet. Estamos usando e adaptando as palavras que sabemos que esses agricultores já pronunciaram, embora não em conversa entre si. (pausa) E agora vou começar com o sr. Siaka Coulibaly.

Siaka Coulibaly: Gostaria de começar dando as boas vindas aos meus colegas do Brasil e da Austrália e, para que eles se sintam em casa, gostaria que eles falassem primeiro. Eu gostaria apenas de agregar que a agricultura emprega cerca de três quartos da força de trabalho no Máli e o algodão representa mais da metade das exportações do país.

Oumou Coulibaly: I ni Tché (nota do editor: significa “obrigado” no idioma bambara). Vou agora pedir à sra. Julia Weston, da Fazenda Seaview, na Austrália, que fale sobre a sua experiência na administração da sua fazenda. Sra. Weston, por favor.

Julia Weston: Na Fazenda Seaview, mantemos registros de chuva desde 1929. Nós esperamos ter 100 cm de chuva por ano, mas no ano passado tivemos apenas 40 cm, a mais baixa que já registramos. Dia após dia, tudo ficava cada vez mais seco. Os pastos, a safra e os animais secavam e definhavam – e, com eles, os sonhos de todos nós. Mal tínhamos água suficiente para manter o pomar de cerejas vivo. Já tínhamos quase perdido a produção devido à geada. Então tivemos o incêndio florestal. Lutamos para proteger nossos jovens mirtilos, mas perdemos o pomar de cerejas.

Oumou Coulibaly: O Sr. Luís Ismael de Camargo Leme, do Brasil, acabou de ouvir as palavras da Sra. Julia Weston da Austrália. O sr. acha que os agricultores brasileiros têm melhores histórias e experiências?

Luís Ismael de Camargo Leme: Olá a todos. É um prazer participar deste debate entre agricultores de todo o mundo, que nos dá a oportunidade de melhor compreensão e trabalho conjunto. Para responder à sua pergunta, eu diria o seguinte: No dia 27 de março de 2004, Santa Catarina – uma região calma no sul do Brasil, onde vivo – foi atingida pelo primeiro furacão já observado na região. Quatro pessoas morreram, sete pescadores desapareceram, muitos animais morreram e a vegetação silvestre sofreu. Produtos sazonais como a mandioca, milho e arroz foram afetados e as pessoas perderam suas safras. A água salgada do mar que atingiu muito certos lugares afetou alguns produtos antes que a chuva pudesse lavar o solo. Estufas e silos foram danificados e perdemos as safras de cereal que foram armazenadas quando os celeiros desabaram. Mas a previsão do tempo oficial no dia anterior não havia previsto o perigo.

Oumou Coulibaly: Estou começando a ficar com medo. Siaka, acredito que a estação chuvosa não foi boa no Máli nos últimos anos.

Siaka Coulibaly: É muito quente agora e há vento demais. No passado, costumava chover muito. Até dez anos atrás, as primeiras chuvas normalmente vinham em abril. Agora precisamos esperar até o final de maio ou até o meio de junho pela chuva antes de começar a plantar. A chuva costumava ser firme e bem espalhada. Agora, algumas aldeias podem ter muita chuva por vários dias, enquanto as aldeias vizinham sofrem com a seca. O mundo é diferente hoje em dia. Antes, ele era mais rico e produtivo. Havia menos agricultores. Hoje é ao contrário.

Intervalo musical de dez segundos

Oumou Coulibaly: Voltamos à nossa conversa dramatizada sobre mudanças climáticas entre agricultores do Máli, Brasil e Austrália. Lembramos que, embora estes sejam agricultores reais, estas não são suas vozes reais e eles nunca se encontraram. Mas, com a magia da Internet, este é o tipo de conversa que os agricultores poderão ter no futuro próximo. (pausa) Qual solução o sr. recomenda para adaptar-se às mudanças atuais do tempo e do clima, Sr. Siaka Coulibaly?

Siaka Coulibaly: Acho que os seres humanos têm grande parte da responsabilidade por esta situação. Eu sugiro reduzir a área dedicada ao plantio de algodão, plantar árvores, escolher esterco orgânico em vez de fertilizantes qímicos e desenvolver jardins de produção.

Oumou Coulibaly: Agora, novamente o sr. Luís Ismael de Camargo Leme.

Luís Ismael de Camargo Leme: Para reduzir o impacto aos agricultores, podemos diversificar nossa produção. Existem produtos que podem tolerar melhor as más condições do tempo. Eu gostaria que o governo não falasse com as pessoas apenas na época de eleição. Eu gostaria especialmente de ver os agricultores do mundo ajudando-se uns aos outros para pressionar os nossos governos. Aqueles que passaram pelo furacão de Santa Catarina queixam-se de que o pior aspecto é a incerteza.

Oumou Coulibaly: O programa de hoje está chegando ao seu final. Gostaria de deixar a palavra com a sra. Julia Weston. Qual o futuro que a sra. prevê para as gerações futuras?

Julia Weston: Existe um ditado de que a terra é um bem que nos foi entregue pelos nossos ancestrais e que precisamos preservar para os nossos filhos. Isso significa que só podemos depender das próprias pessoas se quisermos que as coisas mudem. É como reconstruir uma casa que já caiu. O papel que cada um de nós deve desempenhar é o de incentivar todos a participarem da tomada de decisões e ajudar a criar as condições sociais, políticas e econômicas necessárias para abordar as causas e as consequências das mudanças climáticas. Somente somos fortes se trabalharmos juntos.

Oumou Coulibaly: Obrigado pelo seu interesse. O programa de hoje foi um encontro radiofônico imaginado entre agricultores de três continentes diferentes, com histórias reunidas pela Amigos da Terra e seus parceiros. Para resumir os temas de hoje, aqui estão as questões para você concorrer a um prêmio. Os três primeiros vencedores vão receber gravações de música local da sua escolha.

  1. Onde e em que ano ocorreu o furacão Catarina?
  2. Quando as primeiras chuvas da estação chuvosa começavam no Máli dez anos atrás e quando elas começam hoje?
  3. Quais observações podem ser feitas sobre as chuvas na Austrália nos últimos anos?

Prepare suas respostas e envie para a Rádio Fanaka Banankabougou, que fica em frente ao Banco Nacional de Desenvolvimento Agrícola, em Fana, no Máli. Fone: 225 33 48, e-mail:lamzeau@yahoo.fr

Obrigado e até logo.


Créditos:

Contribuição de Lamine Togola, Rádio Fanaka.

Revisão: Dr. Damian Ihedioha, Consultor Internacional sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas na Nigéria.

Fontes de informação:


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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