Os jardins cooperativos de Santa Lúcia

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1º de abril de 1993, como parte do pacote de informações n° 28.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-28/santa-lucia-co-operative-gardens/.


Observações para as emissoras:

O projeto de jardins vegetais das mulheres em Santa Lúcia não faz parte da associação cooperativa regional UCA e, por isso, ainda não é reconhecido oficialmente como cooperativa.  Mas, com o tempo, ele pode tornar-se uma cooperativa agrícola formal.  Se isso acontecer, será a primeira cooperativa dirigida por mulheres a participar da UCA.


Roteiro:

Alguns anos atrás, um grupo de mulheres da aldeia de Santa Lúcia pensou em uma forma de resolver um problema que deixava todas preocupadas. Elas estavam preocupadas porque os seus filhos não estava comendo bem.

Santa Lúcia fica em uma área montanhosa da Nicarágua, na América Central. A maioria das pessoas da região vive da agricultura de subsistência e da produção comercial em pequena escala. Algumas pessoas, por exemplo, cultivam e vendem café ou chá. Em sua maioria, eles são pobres.

Milho, feijão e arroz compunham a alimentação regular. Quase ninguém na região cultivava nem comia outros vegetais. As mulheres acreditavam que, se começassem a cultivar legumes, suas famílias comeriam melhor e sua saúde melhoraria. E elas não precisariam gastar tanto dinheiro comprando alimentos.

As mulheres de Santa Lúcia concluíram que as coisas seriam mais fáceis se elas trabalhassem em conjunto. Elas moravam na cidade e nunca haviam cultivado alimentos antes. Nenhuma delas queria começar sozinha.

O começo:

A primeira etapa foi fazer uma pilha de composto compartilhada. Dona Estela, que é avó e um membro respeitado da comunidade, ofereceu um canto do seu pequeno canteiro de terra para começar o composto.

Um grupo de mulheres trouxe esterco, folhas e outros resíduos orgânicos para a pilha de composto no jardim de Dona Estela. Todas elas ajudaram a virar o composto. Em seguida, quando o composto estava pronto para uso, elas o dividiram entre si.

Como não havia terreno grande disponível, as mulheres decidiram fazer vários jardins pequenos. Em janeiro de 1992, quatorze mulheres estavam trabalhando em nove jardins. As mulheres que têm terra própria plantam legumes nelas. Mas, se alguém que não possuir terra quiser adotar o projeto, não há problema. Elas providenciam para que ela contribua com trabalho em outro jardim em troca da produção. De fato, o compartilhamento da produção é uma parte importante do projeto. As mulheres distribuem o que cultivam, de forma que todos os envolvidos tenham vegetais variados para levar para casa, para alimentar suas famílias.

Compartilhamento de informações:

Outra forma em que as mulheres cooperam entre si é o compartilhamento de informações. Elas mantêm oficinas informais para trocar ideias sobre jardinagem e nutrição. E elas ensinam a outras mulheres como fazer pilhas de compostagem e jardins. As mulheres acham que o compartilhamento de informações entre si é uma das maiores vantagens do trabalho de forma cooperativa.

Elas também realizam reuniões para discutir problemas comuns e tomar decisões como um grupo. Elas se reúnem, por exemplo, para decidir o que plantar e como conseguir sementes e ferramentas. Elas também discutem como lidar com autoridades municipais. As mulheres mais velhas e as envolvidas desde o princípio normalmente detêm mais influência. Mas, para tomar decisões, elas conversam até que cheguem a um acordo aceito por todas.

Elas também trabalham em conjunto como um grupo para conseguir assistência da associação cooperativa local. A associação cooperativa local, conhecida como “UCA”, fornece apoio técnico e, às vezes, mudas, ferramentas e outros produtos para as cooperativas da região de Santa Lúcia. O governo da Nicarágua costumava fazer o trabalho que a UCA faz agora. Como o governo nicaraguense não apoia mais o movimento cooperativo, a UCA está tentando preencher a lacuna.

Os conselheiros agrícolas da UCA viajam pela região e trabalham diretamente com os agricultores e jardineiros. Às vezes, eles promovem oficinas sobre diferentes assuntos agrícolas.

Jardinagem intensiva e orgânica:

As mulheres de Santa Lúcia praticam agricultura intensiva. Elas conseguem grande produção apenas com um terreno pequeno. Naturalmente, isso significa que elas precisam trabalhar muito.

Elas cultivam muitos tipos diferentes de legumes. Por tentativa e erro, elas aprenderam quais são mais produtivos e quais combinações de vegetais funcionam melhor. Cebolas, pimentas, rabanetes, alface, amendoins, cenouras, tomates e alho são populares.

O cultivo de diversos legumes e a rotação cosntante das safras ajuda a afastar doenças e pragas daninhas dos jardins. O uso de pesticidas naturais também ajuda.

Dona Estela e as outras mulheres envolvidas no projeto de jardins de vegetais de Santa Lúcia também acreditam que composto e esterco verde geram vegetais fortes que são mais resistentes a doenças. Como muitos outros agricultores e jardineiros nesta região da Nicarágua, elas usam técnicas de agricultura orgânica. Elas não usam, por exemplo, fertilizantes químicos. Elas descobriram que composto é mais eficaz que fertilizantes químicos. O composto pode ter até quatorze nutrientes diferentes, enquanto a maioria dos fertilizantes químicos contém apenas potásio, fósforo e nitrogênio. Outros agricultores da região demonstraram que feijões cultivados em solo fertilizado com composto são mais sólidos e pesados que feijões cultivados em solo fertilizado quimicamente.

As mulheres também praticam agroflorestamento em pequena escala nos seus jardins. Junto com os legumes, elas cultivam cítricos e outras árvores frutíferas, incluindo mangas e mamões. Elas também cultivam outras árvores, como neem e peras.

O jardim de Dona Estela é típico. Ela tem um canteiro retangular de 15 por 25 metros. Ela cultiva cerca de quinze tipos diferentes de vegetais, cerca de uma dúzia de árvores frutíferas e também cria galinhas.

Compartilhamento de problemas e soluções:

As mulheres de Santa Lúcia estão felizes com seus jardins de vegetais. Mas continuar é uma luta constante para elas. É difícil encontrar dinheiro para sementes e ferramentas. Água é outro problema. Algumas mulheres que gostariam de começar um jardim não podem fazê-lo porque não conseguem encontrar terra perto de poços ou cursos d’água.

Elas também enfrentam outros obstáculos. Um dos primeiros problemas enfrentados pelas mulheres de Santa Lúcia foi a localização dos seus jardins. Elas querem os jardins na aldeia. Mas o prefeito de Santa Lúcia e outras autoridades locais disseram às mulheres que elas deveriam manter seus jardins fora da aldeia, na área rural vizinha. Nenhuma delas nunca teve jardins dentro da aldeia antes.

Dona Estela e as demais sabiam que fazer os jardins na aldeia era uma boa ideia. Com os jardins perto de casa, elas não teriam que passar mais tempo indo e voltando a pé para cuidar deles. E elas não precisariam carregar os seus produtos por longas distâncias. Por isso, as mulheres se organizaram e explicaram seus planos para o prefeito e para os outros líderes comunitários. Elas descobriram que, trabalhando em grupo, eram mais fortes. As pessoas as ouviam. E, no final, elas conseguiam o que queriam. A maioria dos jardins agora fica na aldeia.

Outro problema é que alguns dos homens se opuseram ao projeto. Eles não gostam da ideia de mulheres se reunindo para tomar decisões e elaborar planos próprios. Eles acham que as mulheres deveriam ficar em casa em vez de ir para reuniões e trabalhar nos jardins. Em alguns casos, os maridos usaram violência para tentar evitar que as suas esposas adotassem o projeto de jardinagem. As mulheres de Santa Lúcia descobriram que discutir esse problema com as demais as ajuda a dar coragem e confiança. Elas se sentem mais fortes porque sabem que não estão sozinhas.

Olhando para o futuro:

O projeto de jardins da cooperativa de Santa Lúcia exigiu muito tempo e trabalho duro das mulheres envolvidas. Elas enfrentaram muitos obstáculos, como a oposição dos homens e a falta de recursos.

Mas Dona Estela e as outras mulheres estão satisfeitas com o seu sucesso. Elas agora têm vegetais saudáveis. E, o que também é importante, elas aprenderam como organizar-se e concluir as coisas. Elas ganharam esperança e confiança.

Agora, as mulheres de Santa Lúcia estão usando suas novas técnicas de organização para solucionar outros problemas da comunidade. Pais nicaraguenses, por exemplo, desde recentemente precisam pagar pelos uniformes escolares de seus filhos, taxas de matrícula e até carteiras escolares. Isso costumava ser gratuito. Alguns pais não têm mais dinheiro para mandar suas crianças para a escola. Incentivadas pelo sucesso dos jardins cooperativos, as pessoas de Santa Lúcia agora estão se reunindo para discutir esse problema. Elas querem organizar uma solução cooperativa para que todas as suas crianças possam ir para a escola. As pessoas perceberam que o trabalho em conjunto é a chave para o sucesso.


Fontes de informação:

Este roteiro é baseado em informações fornecidas pela Fundação Is Five.  Pesquisadores da Fundação Is Five visitaram Santa Lúcia e reuniram-se com membros do projeto.  A Fundação Is Five produz publicações educacionais e atualmente está pesquisando projetos de desenvolvimento econômico alternativos na Ásia, África e América Latina.  Seu endereço é:

Is Five Foundation
400 Mount Pleasant Road
Toronto, Ontário  M4S 2L6
Canadá


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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