Queniana adota a agricultura de conservação e melhora sua vida

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 24 de março de 2015, como parte do pacote de informações n° 101.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/101-getting-and-using-audience-feedback-and-evaluating-radio-programs/kenyan-woman-embraces-conservation-farming-and-betters-her-life/.


 

Observações para as emissoras:

Agricultura de conservação é uma forma de agricultura que envolve o uso de práticas específicas para preservar o solo e outros recursos naturais, aumentando ao mesmo tempo o rendimento e a segurança alimentar. Ela inclui práticas como adubação verde com resíduos de plantas e safras, rotação de safras e aragem mínima do solo, evitando ou minimizando outras práticas que prejudiquem a superfície do solo. No oeste do Quênia, a agricultura de conservação inclui o uso de esterco verde ou orgânico de plantas disponíveis localmente como Tithonia.

No oeste do Quênia, condições climáticas difíceis e más práticas agrícolas contribuíram para a perda de solo e cobertura vegetal.  Isso reduz a fertilidade do solo e faz com que os agricultores dependam muito das chuvas, pois o solo não possui a mesma capacidade de retenção de água. Sem umidade no solo, as safras que são susceptíveis a condições secas podem murchar e ser totalmente perdidas. Mas isso pode ser corrigido com a introdução de práticas agrícolas como agricultura de conservação que, ao longo de vários meses ou anos, melhoram a estrutura do solo e aumentam o rendimento.

No Quênia, cerca de 80% dos agricultores produzem em pequena escala e preparam manualmente sua terra. Após o corte dos resíduos da produção, alguns agricultores queimam os resíduos para diminuir o seu trabalho e cavam manualmente seus campos em seguida. As famílias que têm dinheiro às vezes contratam trabalhadores para arar com bois após o corte dos resíduos. Os agricultores usam uma enxada para cavar buracos de plantio e depois semeiam com a enxada. Segundo a agricultura de conservação, essas práticas prejudicam o solo e sua capacidade de reter nutrientes e água para melhor saúde das plantas.

Este roteiro apresenta a história de uma viúva que foi isolada de outros membros da sua comunidade até unir-se a um grupo de agricultores. Os membros do grupo começaram a cultivar sua safra básica, milho, e foram apresentados à agricultura de conservação. Após a viúva tomar conhecimento das práticas de agricultura de conservação por meio do grupo, ela diversificou a sua produção e suas condições de vida, mudando sua vida para melhor.

Você poderá optar por apresentar este roteiro como parte do seu programa agrícola regular, usando as vozes de atores para representar as pessoas. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas originalmente envolvidas nas entrevistas.

Você poderá também usar este roteiro como material de pesquisa ou como inspiração para criar o seu próprio programa sobre agricultura de conservação ou temas similares no seu país.

Fale com agricultores e especialistas que estão praticando agricultura de conservação ou que detenham conhecimento sobre esse tipo de agricultura. Você poderá perguntar a eles:

Quais são os problemas da agricultura local que poderiam ser solucionados com a agricultura de conservação?

Os agricultores estão sendo bem sucedidos com a agricultura de conservação?

Quais são as barreiras para a adoção de aragem mínima para danificar o solo o mínimo possível e outras práticas de agricultura de conservação e como elas podem ser abordadas?

Tempo estimado de condução do roteiro: vinte minutos, com a música de introdução e encerramento.


Roteiro:

Personagens:

  • Apresentador
  • Jenipher Awino, agricultora

Vinheta de abertura

Apresentador: Olá, ouvinte, bem-vindo ao programa. Hoje vamos ouvir a história de uma agricultora que mudou sua vida adotando a agricultura de conservação. O nome dela é Jenipher Awino e ela vive na aldeia de Bar Kite no oeste do Quênia.

A Sra. Awino é viúva há quinze anos e quase desistiu da vida depois de cair em total pobreza. Mas, um dia, ela rompeu o seu isolamento social para unir-se a outros membros da comunidade em um grupo de agricultores que adotaram a agricultura de conservação, o que mudou a vida dela. Acompanhe-me para visitar o seu campo enquanto ela conta a sua história de vida.

Vinheta desaparece. Som de parada de motocicleta. Som de enxada perfurando o solo.

Apresentador: São dez horas da manhã e estou chegando à fazenda de Jenipher Awino depois de entrar em contato com ela por telefone. Ela ainda está no campo retirando as ervas daninhas dos seus tomates.

(Chamando) Bom dia!

Jenipher Awino: (chegando ao microfone) Bom dia! Como vai?

Apresentador: Eu vou bem, obrigado, e a sra.?

Jenipher Awino: (agora ao microfone) Bem, obrigada. Bem-vindo à minha casa.

Apresentador: Obrigado, mas gostaria que a sra. continuasse a arrancar as ervas daninhas enquanto conversamos.

Jenipher Awino: Está bem.

Apresentador: A sra. pode nos contar como começou a plantar e quais safras a sra. cultivou no início?

Jenipher Awino: Comecei a plantar quando ainda morava com meus pais, já faz muito tempo. Quando me casei, eu só conhecia uma forma de agricultura, que aprendi com os meus pais.

Eu preparava a terra cortando um pouco as ervas e virava a terra no leito de plantio com uma enxada para deixá-la mole e regular. Depois eu cavava buracos de plantio e preparava a terra manualmente com a enxada. Mas nunca tive bons resultados com essas práticas, apesar de todos os esforços que eu dedicava.

Meu falecido marido fazia trabalhos temporários de reparo e manutenção de carros. Mas nós não conseguíamos prover adequadamente a nossa jovem família. Quando ele morreu, quinze anos atrás, meu primeiro filho tinha apenas dez anos de idade. Eu continuei a plantar da mesma forma depois da morte do meu marido, pois não havia aprendido nenhuma prática diferente daquela que eu conhecia há tantos anos.

Apresentador: A agricultura era a sua única atividade ou a sra. também fazia outras coisas para trazer renda para sustentar a sua família?

Jenipher Awino: Eu também fazia vassouras para vender no mercado. Comecei quando meu marido ainda era vivo. E também trabalhava na agricultura.

Apresentador: Como a sua situação afetou a relação com os seus vizinhos?

Jenipher Awino: Eu vivia em uma casa de três por três metros. Isso fez com que eu não acreditasse que nada positivo fosse acontecer na minha vida. Eu me isolei dos membros da comunidade. Achei que, lutando sozinha, venceria meus problemas.

Mas isso não funcionou. Fui então apresentada por uma amiga a um grupo comunitário chamado Tego Yie (nota do editor: frase em luo que significa fortalecer a fé) em uma aldeia no subcondado de Ugunja. Este foi o começo da minha transformação. Juntei-me ao grupo comunitário cinco anos atrás. O objetivo do grupo era mudar as condições de vida com a agricultura.

Apresentador: Foi fácil para a sua amiga convencer a sra. a entrar para o grupo?

Jenipher Awino: Muitas mulheres na minha aldeia pertencem a grupos em que praticam atividades como carrosséis para ganhar dinheiro (nota do editor: “carrossel” é a denominação local de uma Associação de Poupança e Crédito Rotativo). Mas eu me sentia deixada de lado; achava que não poderia me enquadrar nos seus sistemas porque a situação econômica delas era melhor do que a minha.

Apresentador: O que fez com que a sra. mudasse de ideia?

Jenipher Awino: Comecei não só a comparecer às reuniões do grupo, mas também às reuniões da comunidade organizadas pela administração local: os chefes e vice-chefes. Nas reuniões da comunidade, soube de um projeto conduzido pelo Ministério da Agricultura e algumas organizações não-governamentais para praticar agricultura de conservação com grupos de agricultores. O nosso grupo era um dos envolvidos.

Apresentador: Qual era exatamente o treinamento sobre a agricultura de conservação?

Jenipher Awino: Quando entrei no grupo, o treinamento ensinava a produção simultânea de milho com legumes. Eu estava pronta para aprender qualquer novidade que melhorasse minha vida.

Nós fomos treinados pelo Ministério por uma estação, ou seja, três meses e meio. Havia uma área de demonstração com quatro canteiros diferentes. Um canteiro era de milho intercalado com grama verde, outro era de milho intercalado com feijão, outro era de Dolichos lablab e outro era de feijão fradinho.

Durante o treinamento, deixávamos a terra em repouso apenas com ervas crescendo, sem cavar o solo. Às vezes usávamos uma enxada só para arrancar as ervas do solo. Mas nós não rompíamos a superfície do solo e, com isso, o solo permanecia fértil e mantinha sua capacidade de reter água. As raízes das plantas produtoras também não eram expostas, o que as tornava vulneráveis aos ventos. Nós espaçávamos as plantas produtoras para que o milho formasse um toldo que não permitia que as ervas daninhas tivessem luz solar ou espaço para crescer.

Como grupo, registramos dados do plantio para a colheita. Uma semana depois do plantio, todos nós verificamos o número de folhas de milho por planta, a altura da planta e o comprimento de cada folha. Nós fizemos isso novamente em duas, três, quatro semanas e continuamos até que o milho criasse borlas.

O milho estava maduro e pronto para ser colhido depois de 105 dias. Eu adorei tudo o que fizemos e isso abriu meus olhos.

Apresentador: Como isso abriu seus olhos?

Jenipher Awino: Depois de aprender com as demonstrações, cada um de nós fez os mesmos testes na fazenda. Eu escolhi produção intercalada de milho e feijão. Eu só podia cortar as ervas daninhas e não podia usar plantador mecânico. Eu cortei as ervas daninhas arrancando as plantas pela raiz com uma pequena enxada que não interferia com o solo. Nosso grupo concordou em visitar as fazendas uns dos outros para motivar a todos e ver como cada um estava se saindo. Isso fez com que eu me concentrasse ao máximo.

Na época da colheita, eu era toda sorrisos. Do mesmo acre onde nunca consegui mais de um saco de 90 kg, eu colhi doze sacos de 90 kg.

Este foi o começo da minha jornada de sucesso. Pela primeira vez na minha vida, vendi meus produtos agrícolas no mercado e ainda sobrou um pouco para a minha família. Esta foi minha motivação e eu prometi nunca mais voltar para a pobreza miserável que havia marcado minha imagem na aldeia.

Apresentador: Foi isso que a sra. aprendeu?

Jenipher Awino: Depois desta primeira atividade com o grupo, organizações não-governamentais continuaram a interagir conosco por meio da administração local. Uma ONG chamada Farm Inputs Promotions Africa nos treinou a cultivar vegetais orgânicos. Eu cultivei variedades vegetais locais, principalmente para o mercado. A ONG também nos treinou a criar animais e ensinou administração básica de criação de aves. Eu construí um galinheiro para abrigar as aves e protegê-las de predadores com uma grade de arame. Essas aves vêm fornecendo ovos para os agricultores. Os agricultores dão os ovos para suas galinhas chocarem.

Eu também comecei diversas iniciativas agrícolas. A Organização de Pesquisa Agrícola do Quênia e uma ONG chamada Organização de Segurança Alimentar e Energia Rural nos ensinaram a cultivar bananas usando materiais de plantio que haviam sido cultivados em um ambiente estéril em viveiros, o que é chamado cultivo de tecidos. Isso envolveu uma escola de campo para agricultura por um ano.

Também recebi uma cabra leiteira da Heifer International e vendo o leite. Eu também tenho uma nova iniciativa de processamento de batata doce de polpa laranja e venda de salgadinhos para uma escola primária das vizinhanças. Eu faço farinha para mingau, usando batata doce de polpa laranja, soja e sorgo para fazer a farinha.

Apresentador: A sra. pode indicar os benefícios da agricultura de conservação?

Jenipher Awino: Depois de me envolver com a agricultura de conservação, eu deixei de comprar milho do mercado, pois produzo o suficiente para a minha família. A agricultura de conservação envolve menos tempo e menos trabalho, possui alto rendimento, mantém a estrutura do solo e evita que as safras murchem devido à seca.

Como existe lavoura mínima em agricultura de conservação, o solo não sofre erosão e isso aumenta a sua capacidade de reter água.

Mas a agricultura de conservação só é fácil para os que fazem pacientemente o seu trabalho agrícola; os resultados não vêm do dia para a noite. Na agricultura de conservação, é importante para cobrir o solo a todo tempo. Por isso, eu faço adubação verde na fazenda, usando hastes de milho ou Tithonia, que também agrega nitrogênio ao solo. Uso apenas esterco de fazenda compostado como fertilizante.

Apresentador: O seu trabalho inspirou outros habitantes da aldeia, ou seus parentes?

Jenipher Awino: Atualmente sou conselheira agrícola da aldeia e treinadora de professores. Diversifiquei minha agricultura e agora cultivo muitas safras diferentes, o que me fez ganhar muito. Eu me mudei de uma casa de trinta por trinta metros com telhado de grama para uma casa semipermanente.

E ganhei o respeito das pessoas da comunidade, o que me motiva a continuar trabalhando muito e de forma inteligente. Com o conhecimento e as técnicas que aprendi, as pessoas me visitam da comunidade e de outros países. Até me chamam de professora, apesar do meu nível primário de educação.

Apresentador: A sra. tem outras histórias de sucesso além dos altos rendimentos, alcance de mercado e construção da casa?

Jenipher Awino: Da minha renda com a agricultura, fiz com que o meu filho mais velho se formasse em Mecânica. Ele mora em uma cidade distante praticando o que aprendeu. Ele esteve em casa um dia e viu que eu havia vendido um lote de bananas por 1500 xelins quenianos e um lote de legumes por 500 xelins. O que ele fazia não dava muito dinheiro, então ele decidiu mudar-se de volta para casa para praticar agricultura como eu.

Com o dinheiro que ganho com a agricultura, comprei para ele uma motocicleta para um negócio de transportes. Com trabalho duro, ele conseguiu comprar mais duas motocicletas e tem uma academia totalmente equipada. Os seus negócios estão indo bem e ele construiu a sua própria casa depois de ter uma casa muito ruim por muito tempo.

Apresentador: Qual é o seu sonho?

Jenipher Awino: O meu sonho é ver meus filhos se formarem no nível que eles quiserem. Eu também sonho em comprar uma van para vender meus produtos no mercado. Também quero construir uma casa melhor que aquela onde vivo.

Apresentador: Obrigado, sra. Jenipher Awino, por levar-nos em sua jornada de trabalho duro e determinação.

Você também pode fazer isso, ouvinte! Jenipher começou com pouco e deu importância aos seus grandes sonhos.

Hoje, percorremos a fazenda de Jenipher e ouvimos a história de uma mulher que está cultivando milho intercalado com feijão e praticando lavoura zero, produzindo ainda bananas e vendendo ovos.

Você pode começar usando as mesmas práticas: lavoura zero, usando espaçamento correto, retirada correta e tempo correto de retirada de ervas daninhas, métodos corretos de colheita e sem interferir com o solo – tudo para obter melhor rendimento e qualidade de vida.

Até o nosso próximo programa agrícola! Sou __________ (nome do apresentador).

(Vinheta de abertura sobe e desce)


Créditos:

Contribuição de Rachel Adipo, responsável de programas, Programa de Pesquisas Adaptativas e Tecnologia da Informação, Centro de Recursos Comunitários de Ugunja.

Revisão: Getrude Kambauwa, Chefe de Conservação de Recursos da Terra, Sede do Departamento de Conservação de Recursos Fundiários, Ministério da Agricultura do Maláui, Departamento de Água e Irrigação; Wycliff Kumwenda, Gerente de Serviços Agrícolas, Associação Nacional de Pequenos Agricultores do Maláui; e Peter Kuria, responsável de programas da Rede Africana de Lavoura de Conservação, Quênia.

Fontes de informação:

Entrevista com Jenipher Awino, agricultora e conselheira agrícola da aldeia, 16 de outubro de 2014.

Projeto realizado com apoio financeiro do Governo do Canadá, por meio do Ministério de Assuntos Externos, Comércio e Desenvolvimento (DFATD).

Este roteiro foi escrito com o suporte da Irish Aid.


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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