O julgamento do sistema monetário internacional

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1º de julho de 2006, como parte do pacote de informações n° 78.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-78/the-trial-of-the-international-monetary-system/.


 

Observações para as emissoras:

Este roteiro aborda diversos dos objetivos de desenvolvimento do milênio, incluindo o objetivo nº 1 (erradicar a pobreza extrema), o objetivo nº 3 (promover a igualdade de gênero e valorização da mulher) e o objetivo nº 4 (reduzir a mortalidade infantil). O roteiro é um drama que tem lugar em um tribunal imaginário. Nesse tribunal, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e outros réus encontram-se em julgamento. Eles são acusados de realizar ações que, em vez de beneficiar as nações pobres que supostamente deveriam ajudar, estão na verdade causando mais danos a economias e comunidades já frágeis, aprofundando ao mesmo tempo a pobreza e a desigualdade econômica.

As palavras e opiniões deste roteiro são as dos seus autores e nem todas as pessoas estarão de acordo. Elas representam sérias críticas às instituições globais e nacionais. Os argumentos, embora talvez sejam severos e ásperos em alguns momentos, merecem ser ouvidos e discutidos de forma razoável.


Roteiro:

Personagens:

  • Narrador
  • Escrivão do tribunal
  • Advogado de acusação
  • Advogado de defesa
  • Sini Casi, estudante
  • Representante do Banco Mundial
  • Gnageba, agricultora
  • Representante do Fundo Monetário Internacional
  • Gnanieba, chefe de aldeia
  • Representante do G8
  • Mulher
  • Representante do governo do Máli
  • Ativista

Apresentador: Bom dia (boa tarde, boa noite) e bem-vindo ao nosso programa. Hoje apresentamos uma peça de radioteatro intitulada O Julgamento do Sistema Monetário Internacional. Este teatro apresenta algumas opiniões interessantes mas talvez controversas sobre política internacional. As palavras e opiniões deste roteiro são as dos autores do roteiro e não necessariamente desta emissora. (pausa) Estamos prontos para começar. Espero que vocês gostem do teatro.

Narrador: Estamos no meio de um julgamento importante. Foram apresentados processos legais contra o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e outros réus. A primeira testemunha do processo, uma estudante, vai agora prestar testemunho contra os réus. Vamos ouvir.

Sons de tribunal – manuseio de documentos, tosses ocasionais etc. Diminuem sob as vozes dos atores.

Advogado de acusação: Poderia descrever para nós a sua rotina diária normal?

Sini Casi: Eu me levanto às cinco horas da manhã para chegar cedo à universidade. Pego o ônibus e pago a passagem toda manhã, pois não há serviço de transporte para os estudantes. Cerca de trezentos de nós somos colocados em uma sala e não temos material escolar. Muitas vezes, o professor se atrasa ou não vem. Quando vem, está de mau humor e dá sua aula como se estivesse vendendo sabão. Isso é esperado, pois os professores recebem pouco, a menos que trabalhem em escolas particulares. Muitas vezes, há greve dos professores, o que dificulta nossa aprovação nos exames. As aulas terminam por volta das oito da noite e eu volto para casa para dormir. Fico muito cansada para trabalhar.

Advogado de acusação: Qual será o futuro para estudantes como você?

Sini Casi: A maioria de nós termina sem emprego. Outros trabalham em pequenos empregos que não são relevantes para seus estudos. E, infelizmente, todos nós sabemos aonde o desespero de não encontrar trabalho pode levar: drogas, prostituição, crime…

Advogado de acusação: Na sua opinião, a dívida do país contribui com o mau estado da educação?

Sini Casi: Por muito tempo, esperei melhorias, mas não vejo nada acontecer. Além da privatização da educação, não vejo outras mudanças e, infelizmente, a privatização não veio para melhorar.

Advogado de acusação: Nessas condições, você está preparada para continuar a pagar a sua dívida estudantil?

Sini Casi: Claro que não!

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a primeira testemunha de defesa, o Banco Mundial.

Pausa enquanto a testemunha caminha para a frente do tribunal. Sons de tribunal sobem e descem sob a testemunha.

Advogado de defesa: É possível perdoar a dívida do Máli?

Banco Mundial: Nós não somos quem toma as decisões. As decisões são tomadas pelos países credores do hemisfério norte. O Máli já teve grande parte da sua dívida perdoada por meio da iniciativa para Países Pobres Altamente Endividados. Este é um grande passo adiante.

Advogado de defesa: Muitas pessoas no Máli criticam os Programas de Ajuste Estrutural elaborados pelo Banco Mundial. Eles dizem que esses programas resultaram na redução dos gastos públicos e muita privatização. O que você acha desses programas?

Banco Mundial: Os Programas de Ajuste Estrutural foram criados, seguindo o nosso conselho, para ajudar o Máli a pagar a sua dívida. Antes do nosso envolvimento, a administração do orçamento era caótica. Por exemplo: havia muitos servidores públicos e eles recebiam mais do que o devido. Mas, graças a nós, a situação melhorou. E a privatização foi algo bom.

Advogado de defesa: Mas ela não tirou o trabalho de muitas pessoas?

Banco Mundial: Claro, de algumas pessoas, mas elas vão encontrar novos empregos rapidamente porque o crescimento econômico será mais forte.

Advogado de defesa: Quais projetos foram financiados pelo Banco Mundial?

Banco Mundial: Os projetos financiados pelo Banco Mundial ajudaram muito o Máli. Nossos programas permitiram a construção de autoestradas, escolas, centros de saúde e muitos outros benefícios.

Advogado de defesa: Segundo um estudo das Nações Unidas realizado em 2001, dois terços das pessoas do Máli estão abaixo da linha de pobreza e mais de uma criança em cada cinco no Máli morre antes de completar cinco anos de idade. Por que os seus programas parecem aumentar a pobreza em vez de reduzi-la?

Banco Mundial: Os nossos programas são bons, mas são mal administrados pelos líderes no Máli. Existe corrupção demais. Se os programas fossem administrados por pessoas honestas e competentes, tudo seria melhor. Veja, por exemplo, a honestidade dos líderes dos países ricos que raramente se envolvem em escândalos financeiros.

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a segunda testemunha do processo: Gnageba, agricultora.

Pausa enquanto a testemunha caminha para a frente do tribunal. Sons de tribunal sobem e descem sob a testemunha.

Advogado de acusação: Você pode descrever para nós um dia normal na vida de um agricultor?

Gnageba: Eu me levanto às seis da manhã e comemos os restos do jantar da noite anterior. Depois, como meu pai, meu avô e meus antepassados, pego minha pequena daba (enxada) e vou trabalhar nos campos com meus filhos. Nós trabalhamos até uma hora da tarde, fazemos um intervalo de trinta minutos e trabalhamos novamente até às cinco horas. Meus filhos então voltam para casa e eu fico para cortar madeira. Depois do jantar, eu durmo como uma tora.

Advogado de acusação: Quais produtos você cultiva?

Gnageba: Amendoins – é o produto mais bem sucedido na região. Além disso, planto milho para meu consumo pessoal.

Advogado de acusação: Você sempre plantou amendoim?

Gnageba: No início eu plantava milho e fônio, mas soube que amendoins rendem muito dinheiro. Então comecei a cultivá-los. Depois fui aconselhada a plantar algodão, porque o preço é bom e é bom para o país exportar muito algodão. Mas, dois anos atrás, os preços caíram e voltei a plantar amendoins para poder pagar minhas dívidas.

Advogado de acusação: Como você entrou em dívida?

Gnageba: Os preços do algodão eram baixos demais e eu não ganhei dinheiro suficiente para pagar as sementes, pesticidas e equipamento. Precisei tomar dinheiro emprestado. Também precisei pagar pelo reparo do sistema de irrigação.

Advogado de acusação: Mas você não recebeu nenhum subsídio estatal?

Gnageba: Não, nunca recebi nenhum apoio. Na minha opinião, alguém deve estar recebendo esse dinheiro, mas não somos nós!

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a segunda testemunha de defesa, o Fundo Monetário Internacional.

Pausa enquanto a testemunha caminha para a frente do tribunal. Sons de tribunal sobem e descem sob a testemunha.

Narrador: (em voz baixa sobre os sons do tribunal) O Fundo Monetário Internacional é uma organização que procura promover o crescimento econômico, especialmente em países mais pobres. Ele frequentemente fornece conselhos aos governos dos países pobres sobre como podem administrar suas economias para reduzir a sua dívida externa. O advogado de defesa está pronto para questionar o representante do FMI. Vamos ouvir.

Advogado de defesa: Na sua opinião, é possível perdoar a dívida do Máli?

FMI: Nós já cancelamos parte da dívida por meio da iniciativa para Países Pobres Altamente Endividdados. Isso é muito generoso da nossa parte e resolveu o problema da dívida do Máli. Nós emprestamos a esse país um montante considerável de dinheiro para financiar o seu desenvolvimento e você agora quer que nós perdoemos tudo? Isso não é razoável! Quando um banco empresta a você dinheiro para construir a sua casa, você precisa pagá-lo de volta; quando você empresta dinheiro para um país, é a mesma coisa. Se o Fundo Monetário Internacional cancelar toda a dívida, o sistema financeiro internacional entrará em colapso e os países do hemisfério norte perderão muito dinheiro. De qualquer forma, se decidirmos cancelar toda a dívida, nós colocaremos algumas condições sobre essa iniciativa e estabeleceremos outros programas de ajuste estrutural.

Advogado de defesa: As taxas de juros são muito altas, o que quer dizer que esse país já reembolsou o valor emprestado muitas vezes. A África subsaariana reembolsou sua dívida quatro vezes desde 1980, mas está três vezes mais endividada que estava 25 anos atrás. O que você pensa a respeito?

FMI: As taxas de juros são definidas pelo mercado financeiro internacional. Este país é subdesenvolvido e é inevitável que as taxas de juros sejam altas porque há muitos riscos.

Advogado de defesa: O Máli gasta mais dinheiro para pagar sua dívida que para serviços sociais, educação e saúde. O que você acha dessa situação?

FMI: Isso não é problema meu; é problema do Máli. Vocês devem lidar com isso!

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a terceira testemunha do processo: Gnanieba, chefe de aldeia.

Pausa enquanto a testemunha caminha para a frente do tribunal. Sons de tribunal sobem e descem sob a testemunha.

Advogado de acusação: Quais são as funções de um chefe de aldeia?

Gnanieba: Eu supervisiono as atividades da aldeia e garanto que as decisões sejam respeitadas. O chefe da aldeia também é o protetor das tradições.

Advogado de acusação: Foi construído um centro de saúde dois anos atrás. Como foi feito?

Gnanieba: O centro de saúde foi construído graças aos esforços dos filhos e filhas da aldeia. Ele foi financiado pelas economias dos moradores. Não recebemos apoio do governo nem de mais ninguém.

Advogado de acusação: Quem são os funcionários do seu centro de saúde?

Gnanieba: Uma mulher administra o centro e temos a sorte de ter, entre os moradores, uma pessoa com treinamento em ciências veterinárias. Ele cuida de emergências menores e primeiros socorros. Para casos mais sérios, conseguimos alugar uma motocicleta para levar os pacientes para o centro apropriado a 25 km de distância. Infelizmente, leva duas horas para chegar até lá, porque as estradas de terra são muito ruins. Isso em tempo bom! Na estação chuvosa, não conseguimos dirigir para muito longe da aldeia.

Advogado de acusação: Você já ouviu falar de fundos financiados por dívida para a construção de centros de saúde?

Gnanieba: Não, nunca ouvi. O dinheiro deve estar preso em algum lugar na capital.

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a terceira testemunha de defesa, o G8.

Pausa enquanto a testemunha caminha para a frente do tribunal. Sons de tribunal sobem e descem sob a testemunha.

Narrador: (em voz baixa sobre os sons do tribunal) O G8 é um fórum não oficial no qual os chefes de Estado de oito dos países mais industrializados do mundo se reúnem para discutir questões internacionais. Ele exerce poder considerável. O advogado de defesa vai questionar o representante do G8. Vamos ouvir.

Advogado de defesa: É possível eliminar os encargos da dívida do Máli?

G8: Os ministros das finanças dos países ricos já discutiram o cancelamento da dívida com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e outros bancos de desenvolvimento regional e internacional. Não podemos fazer mais. Já estamos sendo muito generosos com o Máli, fornecendo muito dinheiro para auxílio ao desenvolvimento.

Advogado de defesa: O Máli e muitos outros países do mundo não têm receita suficiente para pagar suas dívidas e atender às outras necessidades do país ao mesmo tempo. Eles precisam pedir mais dinheiro, o que aumenta a sua dívida total. Qual é a sua opinião a respeito?

G8: Não somos uma associação humanitária; somos um grupo dos países mais poderosos do mundo. Se o Máli não tem dinheiro suficiente, nós lamentamos, mas o país precisa aumentar a sua produção de ouro e algodão para receber moeda estrangeira. Isso é o comércio internacional!

Advogado de defesa: Mas não é verdade que os preços do algodão caíram muito nos últimos anos?

G8: Isso não é responsabilidade nossa. Quem define os preços é o mercado internacional. É a lei da oferta e da procura. Os países do G8 fabricam os melhores produtos e todos querem comprá-los. Não podemos fazer com que o povo do Máli pare de comprar nossos produtos, nem podemos forçar os países do hemisfério norte a comprar o algodão do Máli! Precisamos aceitar as regras do sistema capitalista. Nós somos ricos e vocês são pobres; esta é a situação e não podemos fazer nada a respeito.

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a quarta testemunha do processo, a mulher.

Pausa enquanto a testemunha caminha para a frente do tribunal. Sons de tribunal sobem e descem sob a testemunha.

Advogado de acusação: Poderia descrever para nós a sua rotina diária?

Mulher: Às seis da manhã, vou pegar água e preparo o café da manhã. Depois preciso moer o milho. Em seguida, preciso pegar madeira, lavar as roupas e, é claro, durante todo esse tempo preciso cuidar das crianças! Tenho cinco filhos para alimentar. Na época da colheita, vou ajudar nos campos. Também faço um pouco de manteiga de carité com a cooperativa das mulheres da aldeia. A cooperativa quer cultivar um pedaço de terra para diversificar a alimentação das nossas crianças. Um médico nos disse que nossos filhos precisam de vegetais, que eles estão sofrendo de “má nutrição” ou algo parecido. Estamos dispostos a isso, mas a irrigação é um problema. Os poços ficam muito longe da aldeia e não há sistema de irrigação. Leva horas para pegar água para a família e preciso carregar os baldes sobre a cabeça. É muito pesado e cansativo, especialmente quando estou grávida. Durante a estação seca, os poços da aldeia não têm água e precisamos ir mais longe para encontrá-la.

Advogado de acusação: Por que vocês não cavam mais poços?

Mulher: Toda a aldeia quer fazer isso há anos, mas não temos dinheiro suficiente. No ano passado, a bomba quebrou e precisamos esperar seis meses para ter dinheiro suficiente para o conserto. Como você pode esperar que nós tenhamos dinheiro para cavar um poço?

Advogado de acusação: A aldeia não pode beneficiar-se de apoio estatal? Não existem programas financiados por dívida para perfurar mais poços?

Mulher: Nós pedimos apoio. A aldeia enviou pedidos, mas nunca recebemos resposta. Não sei de dinheiro de dívida disponível para poços, mas, se for verdade, onde está esse dinheiro? Para a aldeia ele nunca veio.

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a quarta testemunha de defesa, o governo do Máli.

Pausa enquanto a testemunha caminha para a frente do tribunal. Sons de tribunal sobem e descem sob a testemunha.

Advogado de defesa: O Banco Mundial e o FMI acusam você de corrupção e má administração. O que você tem a dizer sobre isso?

Governo do Máli: Não compreendo. Nós implementamos o modelo proposto pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial. Fizemos cortes no orçamento estatal e estamos privatizando nossos recursos. É claro que o processo de privatização é lento, mas as pessoas são contra. Precisamos dar a eles a impressão de que estamos ouvindo. Não queremos precisar lidar com greves ou uma revolução.

Advogado de defesa: Você pesquisou os impactos sociais e econômicos da privatização de companhias nacionais, como a energia elétrica e o transporte ferroviário?

Governo do Máli: É claro que a privatização causa perda de empregos. Mas ela reduz as despesas públicas. É isso que estão nos pedindo para fazer! Eu apenas implemento os planos de ajuste estrutural – eu não faço os planos. O número de servidores públicos foi reduzido. Ninguém tem tempo nem dinheiro para estudar os impactos.

Advogado de defesa: Como o Máli pretende escapar da sua enorme dívida?

Governo do Máli: Continuaremos a seguir os bons conselhos do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Se formos bons alunos, eles nos prometeram reduzir a nossa dívida. Nós temos recursos naturais valiosos, como ouro e algodão, e precisamos aumentar a sua exploração. Foi-nos recomendado o cultivo de algodão geneticamente modificado para aumentar a nossa produtividade. As sementes geneticamente modificadas custam um pouco mais para os agricultores e eles precisam comprá-las todo ano. Mas, se traz moeda forte para o país… por que não?

Escrivão do tribunal: A testemunha está dispensada. (pausa) O tribunal convoca a quinta testemunha do processo, o ativista engajado da sociedade civil.

Advogado de acusação: Qual é a sua atividade?

Ativista: Sou um ativista engajado do programa de Colisão de Alternativas Africanas para a Dívida e o Desenvolvimento. Há anos temos defendido o perdão completo e incondicional da dívida do Máli.

Advogado de acusação: Na sua opinião, é possível perdoar a dívida do Máli?

Ativista: Claro! É apenas questão de vontade política de fazê-lo nos países do hemisfério norte. Em primeiro lugar, o Máli já pagou a sua dívida várias vezes devido aos altos juros. Nós não devemos mais nada! Os nossos líderes foram convencidos pelos países do hemisfério norte a contrair a dívida. Eles aceitaram esta situação porque achavam que era bom para eles.

Advogado de acusação: É verdade que, com o perdão da dívida com base na iniciativa para Países Pobres Altamente Endividados, os fundos governamentais devem ser investidos no combate à pobreza?

Ativista: Sim, teoricamente isso é verdade. Mas, na prática, nós não sabemos nada sobre o real uso desses fundos. É muito difícil conseguir informações precisas sobre a alocação desses fundos. Nós não vemos progresso no campo da educação, saúde ou serviços sociais básicos.

Advogado de acusação: Na sua opinião, o problema é causado pela má administração da dívida?

Ativista: Não só isso. O maior problema vem do fato de que o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional insistem que o dinheiro seja usado para programas muito caros que são inúteis ou simplesmente servem para enriquecer as multinacionais que conseguem os contratos, sem considerar os impactos sociais ou ambientais dos projetos. Acima de tudo, o interesse do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional não é a redução da pobreza. Isso é hipocrisia! O interesse deles é tornar os países do hemisfério norte mais ricos às custas da África. Eles impõem a nós os seus Programas de Ajuste Estrutural, que só tornam os países africanos mais pobres.

Advogado de acusação: Qual é a sua opinião sobre os Programas de Ajuste Estrutural?

Ativista: O Fundo Monetário Interanacional e o Banco Mundial estão prescrevendo Programas de Ajuste Estrutural utilizando a desculpa de que a saúde fiscal precisa ser restaurada para que o Máli possa pagar a sua dívida. Na verdade, os Programas de Ajuste Estrutural possuem uma fórmula simples, nomeadamente que o Estado deve gastar menos para poder pagar uma parcela maior da dívida. O resultado é a privatização quase completa da economia do Máli. Quem está comprando essas empresas? Não são pessoas do meu país, mas multinacionais que só pensam nos seus próprios lucros e transferem todos os fundos de volta para os países do hemisfério norte.

Advogado de acusação: Mas qual é a alternativa? Qual a sua proposta?

Ativista: Em primeiro lugar, solicitamos o cancelamento completo e incondicional de toda a dívida do Máli. Em seguida, precisamos pensar em um modelo de desenvolvimento que seja verdadeiramente adequado ao nosso país e garanta melhor distribuição da riqueza. O meu país possui recursos naturais como ouro e algodão, mas, na verdade, eles não beneficiam a nossa população. Precisamos construir um sistema comercial mais justo, com base não apenas nos lucros e na especulação. Também solicitamos consulta mais ampla na sociedade civil sobre essas questões.

Escrivão do tribunal: Obrigado a todas as testemunhas. Aqui terminam os testemunhos. O presidente do tribunal pede aos advogados que apresentem os seus argumentos finais. Primeiro, o advogado de defesa.

Pausa enquanto o advogado de defesa anda até a frente do tribunal. Sons do tribunal sobem e caem sob a voz do advogado.

Advogado de defesa: A sociedade civil precisa parar de demonizar as instituições governamentais e os seus próprios governos. Essas instituições desejam apenas fortalecer os laços entre a família dos países desenvolvidos e a família dos países subdesenvolvidos. Elas estão apenas fazendo o seu trabalho. Os testemunhos da acusação certamente são comoventes, mas eles ilustram apenas os impactos negativos das decisões tomadas pelo Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o governo do Máli. No lado positivo, os consumidores africanos agora têm acesso a uma ampla variedade de bens de consumo, o que não ocorria no passado. Estas instituições desejam derrubar as barreiras econômicas para facilitar o comércio internacional, pela humanidade e para o bem-estar econômico.

Acordos de parcerias econômicas, Programas de Ajuste Estrutural e políticas progressivas promovem o desenvolvimento de uma sociedade com base no progresso e no crescimento. O sistema liberal demonstrou sua capacidade nos países ricos. Esses países não são exemplos do que o Máli quer se tornar? Milhares de cidadãos do Máli vêm viver em países ocidentais. Nós oferecemos trabalho em nossas melhores fábricas de algodão – usando algodão importado dos seus países! O Máli possui produtos de qualidade, mas não o conhecimento nem a capacidade de processá-los. Por isso, somos obrigados a fazê-lo. A economia precisa avançar e não temos tempo para parar e ouvir os seus medos e suas preocupações.

Prosperidade, meus irmãos e irmãs, prosperidade! É isso que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial vêm tentando vender há anos. Eles estudam muito as políticas que os países em desenvolvimento precisam adotar para atingir esse objetivo. Ano após ano, eles realizam um encontro de cúpula para estudar e discutir os seus problemas. Os povos africanos permaneceram em desvantagem por séculos porque não demonstraram a capacidade de fazer as coisas por si próprios. Os seus problemas de corrupção e administração, ao lado do seu comodismo, forçaram a nossa intervenção.

O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial são as melhores instituições de administração que os países subdesenvolvidos podem desejar atualmente. Mesmo quando eles tomam decisões por vocês, eles estão ouvindo as suas necessidades e as suas exigências. Como prova disso, integramos a África à cúpula do G8. Reservamos tempo para que os políticos de países da África, do Caribe e da Oceania falassem em uma reunião recente com a União Europeia. Estamos agindo de boa fé e cabe a vocês mostrar que têm a capacidade de integrar os nossos planos. (pausa) Obrigado.

Escrivão do tribunal: O advogado de acusação, por favor.

Pausa enquanto o advogado de acusação anda até a frente do tribunal. Sons do tribunal sobem e caem sob a voz do advogado.

Advogado de acusação: Depois de todos esses testemunhos, vocês podem ver – e não falo para os senhores e as senhoras do júri, porque eles conhecem essas situações e convivem com elas diariamente… estou falando para todos os acusados, sentados no banco dos réus – vocês podem ver os danos causados pelas suas políticas.

Gostaria agora de seguir uma linha de raciocínio que é compartilhada por muitas pessoas que conhecem a história deste continente e do seu povo. Eu dedico este estudo de reflexão à juventude africana, para quem desejo criar um pouco de esperança e disposição para o trabalho por dias melhores.

Os nossos irmãos europeus explicam que todas as dívidas devem ser pagas com juros, mesmo se isso significar vender seres humanos e países inteiros, sem pedir seu consentimento. Mas também podemos exigir o que nos pertence; também podemos reivindicar juros.

Quanto dinheiro a escravidão e a colonização levou para os países riscos às custas do povo africano? Como devemos chamar isso – pilhagem? Ou devemos chamar de espoliação? Genocídio? Dizer isso daria credibilidade àqueles que afirmam que os Estados europeus se desenvolveram graças ao sangue e ao suor dos seus irmãos em terras africanas e outras.

Após tantos séculos deste empréstimo da África para a Europa, temos o direito de formular algumas perguntas. Os nossos irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos recursos tão generosamente emprestados pelo FMA, o Fundo Monetário Africano? (pausa de cinco segundos)

Infelizmente, precisamos responder que não. Do ponto de vista estratégico, estes fundos foram gastos em guerras. Os países europeus demonstraram que não podem passar sem anuidades monetárias, matérias-primas e energia barata dos países do hemisfério sul.

Sendo assim, somos forçados a exigir o pagamento de capital e juros, um pagamento que generosamente postergamos um século após o outro. Fica claro que não iremos ao fundo de cobrar dos nossos irmãos europeus as odiosas e cruéis taxas de juros de 20 a 30% que eles nos pediram para pagar. Nós nos limitaremos a exigir a devolução de todos os nossos fundos que geraram renda no hemisfério norte, mas uma modesta taxa fixa de juros de 10% ao ano, acumulada ao longo dos últimos trezentos anos.

Argumentar que a Europa, ao longo de vários séculos, não foi capaz de produzir riqueza suficiente para pagar esta modesta taxa de juros significaria admitir o seu absoluto fracasso financeiro ou a irracionalidade do capitalismo.

Portanto, exigimos a assinatura imediata de uma carta de intenção obrigando o continente europeu a pagar de volta a sua dívida comprometendo-se com a rápida privatização da Europa, para que a Europa seja fornecida para nós, como um todo, como o primeiro pagamento de uma dívida histórica.

(pausa e mais suavemente) Senhoras e senhores, nós sabemos, vocês e eu, que isso nunca irá acontecer. Mas podemos pelo menos esperar algo melhor de países que, com muita frequência, nos disseram o que era certo fazer.

Por todas essas razões, solicito o cancelamento integral e incondicional da dívida africana e exijo dos governos africanos que, a partir de agora, todo investimento seja conduzido em cooperação com o povo africano e seus representantes, sejam eles da sociedade civil ou políticos. Obrigado.

Os sons do tribunal sobem, permanecem por dez segundos e diminuem em seguida.

Apresentador: Obrigado por ouvir o radioteatro de hoje, O Julgamento do Sistema Monetário Internacional. Lembre-se de que as palavras e opiniões deste roteiro são dos autores do roteiro e não necessariamente desta emissora de rádio. Elas representam sérias críticas às instituições globais e nacionais e nem todas as pessoas concordarão. Os argumentos, embora talvez sejam severos e ásperos em alguns momentos, merecem ser ouvidos e discutidos de forma razoável.

Você tem algum comentário a fazer sobre o radioteatro desta semana e as questões levantadas? Se tiver, telefone para a nossa emissora. Nosso número é (inserir número de telefone). Gostaríamos de ouvir suas opiniões. Obrigado e bom dia (boa tarde, boa noite).


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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