Agricultores usam práticas de agroflorestamento para restaurar terras danificadas pelo desflorestamento e pela erosão do solo

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 17 de novembro de 2015, como parte do pacote de informações n° 102.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/102-raising-guinea-fowl/farmers-use-agroforestry-practices-to-heal-farmland-damaged-by-deforestation-and-soil-erosion/.


 

Observações para as emissoras:

Os pequenos agricultores frequentemente são meras vítimas dos maus resultados das ações descuidadas de outras pessoas. Um exemplo ocorre quando as pessoas cortam árvores em grandes quantidades para fornecer lenha ou carvão para mercados urbanos ou para outros fins comerciais. Quando muitas árvores são cortadas, as chuvas podem ser afetadas e apresentar impacto sobre o crescimento de safras. Além disso, a erosão do solo pode apresentar impactos sobre a quantidade de nutrientes e água para o cultivo de safras. Ela causa baixos rendimentos, o que resulta em fome e pobreza para os agricultores.

Este roteiro conta a história verdadeira de uma parte do leste de Zâmbia que, no passado, apresentava espessa floresta e solo rico, mas que foi ocupada posteriormente por pessoas interessadas apenas no uso da floresta para ganhar dinheiro a curto prazo. Infelizmente, isso levou à degradação da floresta em níveis que poderiam causar desertificação, baixos rendimentos de safra e fome para os pequenos agricultores da região.

Por sorte, os agricultores decidiram enfrentar esse desafio empregando sistemas e práticas de agroflorestamento para proteger e melhorar seu solo e terreno.

Você poderá optar por apresentar este roteiro como parte do seu programa agrícola regular, usando as vozes de atores para representar as pessoas. Se o fizer, não deixe de informar os seus ouvintes que os atores estão representando pessoas reais que usam as práticas discutidas.

Você poderá também usar este roteiro como material de pesquisa ou como inspiração para criar o seu próprio programa sobre o desflorestamento e a degradação ou temas relacionados no seu país.

Fale com agricultores e especialistas que estão empregando alguns dos sistemas e práticas mencionadas neste roteiro. Pergunte a eles:

  • Como ocorreram os danos ou a degradação da terra na sua região? Qual foi o impacto sobre o meio ambiente local e sobre os agricultores?
  • Os agricultores tomaram medidas para reabilitar ou restaurar a terra? O que eles fizeram? Eles tiveram sucesso?
  • Existem barreiras para a tomada de medidas para reviver a terra? Se houver, quais são elas e como elas podem ser superadas?

Tempo estimado de condução do roteiro: 20 minutos, com a música de introdução e encerramento.


Roteiro:

Sobe vinheta de abertura

Narrador: Está na hora de Vamos conservar e restaurar nossos recursos naturais, um programa que mostra como os recursos naturais atendem aos pequenos agricultores e o que devemos fazer para conseguir o máximo de benefícios da agricultura.

Pegue lápis e papel para fazer anotações importantes.

Desce vinheta de abertura

Filius: Bem-vindo ao nosso programa. Meu nome é Filius Chalo Jere, seu apresentador de hoje. Tenho certeza que o que temos para você hoje é preocupante para muitos de nós, pois as nossas vidas são afetadas pela forma como nós ou as outras pessoas gerenciam nossos recursos naturais.

Como agricultores, nossos principais recursos naturais são a terra, as árvores e outra vegetação natural na nossa terra. Por isso, precisamos cuidar da nossa terra com cuidado, usando métodos agrícolas que recuperem e melhorem o nosso solo, em vez de degradá-lo e destruí-lo.

Hoje vou contar a história de uma família cuja terra costumava ser muito produtiva. A terra está localizada em uma parte do leste de Zâmbia chamada Mphomwa, na estrada do famoso Parque Nacional de Luangwa.

A família tinha uma vida boa com essa terra. Mas a região foi invadida por pessoas que cortaram as árvores para vendê-las para os moradores da cidade, enquanto outros produziam carvão. Muitas árvores foram cortadas e a região corria o risco de tornar-se um deserto.

Como resultado, a família pobre não pôde mais extrair tanto da sua terra como costumava fazer. Para superar este problema, eles decidiram plantar árvores para aumentar a fertilidade do solo e estão empregando outras práticas de boa administração para conseguir maiores rendimentos.

No estúdio, temos o funcionário de gerenciamento da terra que está ajudando esssa família e outros agricultores da região a recuperar parte da grande fertilidade e produtividade da sua terra.

Charlton: Meu nome é Charlton Phiri e trabalho no Escritório de Serviços Técnicos do Ministério da Agricultura de Zâmbia. Minha especialização é conservação do solo e gerenciamento da terra, incluindo agroflorestamento e coleta florestal.

Conheço bem o problema de Mphomwa. Estou ajudando os agricultores a lidar com o problema de degradação do solo causado pela remoção das árvores. Vou levar você lá e mostrar o que estou fazendo. Você vai encontrar uma das primeiras famílias a ocupar a região. Sugiro ir com a agente de extensão florestal do distrito que trabalha comigo para ajudar os agricultores.

Filius: Normalmente, os agentes de campo usam motocicletas e eu nunca consegui me acustomar com elas. Mas, como alto funcionário, Charlton tem uma caminhonete, o que me ajudou a aceitar o seu convite para acompanhá-lo até Mphomwa.

Veículo dando partida

Filius: Pegamos a agente de extensão florestal do distrito no seu escritório. Ela é uma jovem ativa chamada Emma Sakala, vestida com um uniforme verde.

Estamos dirigindo em uma estrada de asfalto muito boa. Eu me lembro de dirigir nesta mesma estrada mais de quarenta anos atrás em um veículo fraco do governo quando estava começando meu trabalho como produtor de programas agrícolas no rádio. Naquele tempo, a estrada era apenas uma picada. Havia também muitas árvores grandes. Às vezes você via um impala, kudu ou até um leopardo na estrada e havia muitas cobras venenosas. Por isso, era mais seguro manter as janelas fechadas.

Ninguém vivia nesta área até chegar às montanhas Mphomwa, onde morava um homem chamado Yokoniya Mwale. As pessoas achavam que ele era excêntrico porque vivia sozinho com sua família tão longe da civilização. Mas nós parávamos ali porque havia uma fonte natural onde podíamos beber água.

Charlton: É para lá que estamos levando você agora. Você vai saber por quê Yokoniya ocupou esse lugar e como ele se degradou ao longo dos anos.

Filius: Você quer dizer que Yokoniya ainda está vivo depois de todos esses anos?

Charlton: Não, ele morreu há muito tempo. Mas o seu filho mais novo, Abraham, e seus netos ainda vivem ali. Ele quase abandonou o lugar até que mostrei a ele como recuperar a terra.

Filius: Aquele lugar na selva agora é povoado?

Emma: Sim. Como você provavelmente sabe, o Parque Nacional de Luangwa é uma das mais famosas reservas de animais selvagens da África. Turistas vêm do mundo inteiro para ver nossos animais. É por isso que o governo finalmente construiu esta estrada.

Filius: Quantas melhorias!

Emma: Sim, mas isso teve um custo. A abertura da região para o mundo exterior contribuiu com a degradação da terra e o desperdício de recursos. Ela também gerou a caça comercial que eliminou completamente os nossos animais selvagens.

Filius: É possível encontrar animais selvagens no caminho?

Emma: É muito improvável, exceto talvez alguns coelhos e impalas perdidos. Todo esse desenvolvimento chegou ao preço da limpeza de grandes pedaços de terra. 250.000 a 300.000 hectares de floresta são devastados em Zâmbia todos os anos.

Como as árvores são o habitat natural dos animais selvagens, eles foram embora. A maioria dos animais maiores fica agora dentro do parque, perto do Rio Luangwa, onde eles são protegidos por lei. Mas ainda existem muitos macacos e babuínos na região.

Charlton: Você pode ver que estamos nos esforçando para tentar proteger nossos recursos. E os agricultores pobres são os que mais sofrem. O desflorestamento massivo deixou a terra nua e expôs o solo.

Filius: Posso ver evidências do que os dois funcionários estão falando. Existem aldeias ou assentamentos espalhados a pouca distância uns dos outros. Existem grandes áreas abertas sem produção, mas com fornos de carvão queimando. Os morros ficaram sem a maior parte das suas árvores. Estou tão chocado que não consigo falar.

Depois de uma curva da estrada, Charlton diminui a velocidade. Há um abismo ao lado da estrada e bananeiras no lado direito. Mais adiante, vejo uma fileira espessa de velhas mangueiras que quase cobrem uma velha casa de tijolos queimados com teto de folhas de ferro corrugadas enferrujadas.

Tudo parece familiar!

Charlton: Chegamos. Esta é a casa de Yokoniya.

Filius: Charlton sai do asfalto para uma pequena estrada de cascalho que leva até o bosque de mangueiras. Enquanto andamos de carro pelo jardim, os galhos das mangueiras são tão grossos que quase encobrem o sol, dando a impressão de que estamos entrando em uma caverna escura.

Sons de crianças brincando, cabras e galinhas na aldeia

Filius: Além da velha casa de tijolos, há duas ou três cabanas de palha e grama. Vemos muitas galinhas e porcos na aldeia e diversas crianças pequenas brincando em todo o complexo. Um menino pequeno está sozinho no final do complexo, vigiando algumas cabras pastando perto de uma pequena mata de árvores jovens com folhas largas, flores claras e vagens que parecem feijões.

Uma mulher alta de meia idade está sentada em uma velha esteira de juncos limpando folhas de abóbora frescas. Quase começo a acreditar em fantasmas quando vejo um homem mais velho tecendo uma nova esteira de juncos sob a grande mangueira em frente à velha casa.

Filius: (surpreso) Charlton, pensei que você havia dito que Yokoniya estava morto?

Charlton: (rindo) Eu esperava que você dissesse isso. Muitos que conheceram o velho ficam surpresos com a semelhança. Mas este é o seu filho mais jovem e o único sobrevivente, Abraham. Hodi, ba-Yokoniya (nota do editor: Hodi é a forma tradicional de solicitar respeitosamente a permissão na presença de alguém nos idiomas chewa/nyanja).

Abraham: Hodini – ah, é você, ba-Phiri e Amai Emma (nota do editor: Amai é um termo respeitoso formal para mulheres casadas). Sejam muito bem-vindos! Vocês chegaram na hora do seu prato favorito de folhas de abóbora.

Tamara: Sim, já preparei a farinha de amendoim e nsima não leva muito tempo para cozinhar. Com certeza vocês ficarão para o almoço.

Emma: Espero que possamos ficar para o almoço. Mas isso depende do tempo que o nosso visitante precisa para falar com vocês.

Tamara: Na aldeia, nenhum visitante pode sair com o estômago vazio. Quem é ele? novo funcionário do Ministério?

Charlton: Não. O seu nome é Filius Chalo Jere…

Abraham: (surpreso) Você é mesmo o dono daquela voz no rádio?

Filius: Há muitas vozes no rádio, Sr. Yokoniya… ahn… (hesitação no sobrenome)

Abraham: Mwale. Meu nome é Abraham Mwale. Yokoniya era o nome do meu pai.

Filius: Desculpe, Sr. Mwale. Mas, sim, eu falo para os agricultores no rádio.

Tamara: Que maravilha! Bem-vindo à nossa humilde casa. (para o marido) Diga a Limbike para deixar as cabras um pouco e vir ajudar no almoço. Não podemos dar ao nosso visitante importante apenas nsima com folhas de abóbora.

Abraham: Não. Mas o que aconteceu com seus modos, Tamara? Como você pode começar a falar tanto sem primeiro trazer bancos para eles sentarem? Acho que você está ficando velha!

Tamara: (Rindo) Pode ser. Mas não esqueça que você era sete anos mais velho que eu quando me convenceu a fugir com você! (Gritando para chamar) Limbike! Limbike!

Limbike: O que é, ambuya (nota do editor: ambuya significa “vovó”)?

Tamara: Deixe essas cabras e venha ajudar com o almoço para os nossos visitantes. (Pausa) Venha pegar os ovos daquela galinha que começou a por ovos ontem!

Galinhas correndo

Filius: Charlton e eu estamos sentados em bancos de madeira enquanto Emma senta-se em uma esteira de juncos com a esposa de Abraham, Tamara. Enquanto isso, Tamara nos trouxe uma cabaça de uma bebida doce da aldeia chamada munkhoyo, feita com raízes selvagens.

Enquanto bebemos e conversamos com seu marido, Tamara está ocupada tentando fazer muitas coisas de uma vez, também participando da discussão. Fica claro que ela quer garantir que possamos comer alguma coisa antes de sair.

Filius: Conte-me sobre este lugar.

Abraham: Este lugar costumava parecer o Jardim do Éden da Bíblia. Lá adiante, atrás daquele pomar de bananas, há uma fonte que tinha água fresca correndo para cá. É por isso que meu pai decidiu construir um jardim ali.

Filius: Para quê era usado o jardim? Vocês não conseguiam comer toda a produção e a cidade de Chipata ficava longe demais para vocês venderem os seus produtos.

Abraham: É verdade. As pessoas achavam que meu pai era louco por morar aqui. Mas ele morou certa vez na África do Sul e era muito inteligente: ele viu uma grande oportunidade nas pousadas e campos de safári do Parque Nacional de Luangwa.

Filius: Qual oportunidade ele viu?

Abraham: Não havia produtos agrícolas na região devido aos animais selvagens. Por isso, os operadores das pousadas e do campo de safári precisavam viajar 230 km até Chipata em busca de legumes frescos. A estrada era tão ruim que a viagem de ida e volta levava dois dias. Meu pai construiu este jardim para que os operadores das pousadas e do campo de safári não precisassem fazer essa longa viagem.

Filius: O jardim parece esgotado. É porque a estrada boa facilitou a viagem até Chipata em busca de provisões?

Abraham: Não. Mas, de certa forma, é uma das causas da decadência deste lugar.

Filius: Como assim? Achei que a estrada abrisse a região e trouxesse desenvolvimento. Isso significaria mais tráfego e clientes para vocês.

Abraham: Você tem razão, essa estrada trouxe mais pessoas. Mas a maioria delas causa muitos problemas.

Filius: O que você quer dizer?

Abraham: À medida que a cidade de Chipata crescia, as pessoas necessitavam de lenha. Por isso, as pessoas cortavam as árvores para fornecer lenha para os moradores da cidade. Ao longo do tempo, a demanda mudou para carvão.

Tamara: Sim, as pessoas mudaram para as nossas vizinhanças. Elas fingiam ser agricultores como desculpa para cortar árvores para a fabricação de carvão, que era vendido na cidade. Eles praticaram muito pouca agricultura. Quando as árvores terminaram, eles se mudaram para outra região.

Abraham: Recentemente, tivemos a questão das árvores mkula (nota do editor: o nome científico é Pterocarpus tinctorius). Estas árvores fornecem madeira de lei de alta qualidade. Soubemos que os colonizadores a usam para fabricar coronhas de armas e outros produtos. Estrangeiros vêm e oferecem aos habitantes locais dinheiro para cortar as árvores para levar para os seus países.

Filius: Qual foi o efeito dessas ações?

Abraham: (triste) Pouca chuva e solo ruim. Os rendimentos dos produtos diminuíram.

Filius: Como vocês estão lidando com a situação?

Abraham: Vamos para os campos para que você possa entender como estamos lidando.

Som de pessoas afastando-se

Filius: Estamos andando em linha reta como formigas. Abraham vai na frente, seguido por Charlton e eu, enquanto Tamara e Emma vão atrás. Quando saímos da cobertura das mangueiras, é surpreendente ver que a terra foi completamente devastada até as montanhas. Até as montanhas estão nuas, exceto por arbustos espalhados.

À nossa frente, vejo campos de milho, amendoim e outros produtos. Alguns dos produtos são plantados junto aos arbustos que produzem vagens que vimos no final do complexo. Além disso, não há grandes árvores à vista até o horizonte distante, onde uma linha verde indica um rio.

Filius: Estou surpreso pelo seu campo ser tão aberto. Vocês também trabalham no corte de árvores?

Abraham: Não, claro que não. Mas meu pai só estava interessado no pequeno pedaço de terra em volta da fonte para o seu jardim. Por isso, ele permitiu que as pessoas se assentassem em volta dele. Foi uma boa ideia porque javalis costumavam vir e destruir a produção no jardim. Ter mais pessoas à nossa volta reduziu esse risco.

Mas nossos novos vizinhos eram os falsos agricultores de que falei. Assim que eles cortaram todas as árvores grandes e fizeram seu carvão, eles se mudaram e deixaram esta terra nua.

Filius: O que vocês fizeram com a terra abandonada?

Abraham: Conforme nós crescíamos, casávamos e tínhamos nossas próprias casas, o jardim não conseguia sustentar a todos. Por isso, começamos a cultivar produtos de sequeiro nos campos abandonados.

Filius: Como vocês conseguiram, já que foram criados como produtores de legumes?

Abraham: (rindo) As crianças da aldeia são criadas com uma enxada nas mãos. Além do jardim, meu pai costumava cultivar sorgo. Depois ele mudou para milho.

Mas o milho exigia mais cuidado no campo e o solo agora era pobre devido à erosão. Nossos métodos agrícolas também eram ruins.

Som de mulheres cantando com uma voz de homem ao fundo chegando ao microfone

Tamara: Oh, aqui está Anna com o nosso grupo.

Canto das mulheres sobe, depois cai

Tamara: (animada) Obrigada por vir tão rápido, Anna, Sithembile, Bibian e você também Ganizani.

Recebemos um visitante especial que tem um milhão de perguntas. E vejam: o gravador dele está ligado! Vamos falar no rádio, amigas!

Mulheres gritando

Tamara: Oh, vocês vão romper os tímpanos do nosso visitante. Venham, é hora das apresentações.

Anna: Meu nome é Anna, a secretária do Grupo de Conservação de Yokoniya. Mantenho os registros de tudo o que fazemos. Mas a nossa atividade mais importante é a agricultura.

Filius: Obrigado. Agora, como Tamara disse, vocês poderão aparecer no rádio ensinando outros agricultores por quê o corte descuidado das árvores não é bom e como vocês estão lidando com os maus efeitos. Quais foram os principais problemas que vocês enfrentaram devido ao desflorestamento?

Anna: Para nós, mulheres, isso significou andar por distâncias maiores para recolher nossa lenha. Na estação seca, também significou longas distâncias para coletar água para beber e para outros usos.

Sithembile: Eu sou Sithembile, a esposa de Ganizani. Temos um jardim de vegetais, mas atualmente não conseguimos cultivá-los por todo o ano porque o nosso dambo seca rapidamente (nota do editor: dambo quer dizer “pântano ou terra alagada” no idioma chewa). Isso afetou a nossa renda.

Bibian: Sou Bibian. Vivo mais longe, depois da casa de Anna. Sim, o corte de árvores sem cuidado não é bom. Ele destrói o nosso solo e o resultado é a queda da produção.

É por isso que adotamos o novo método agrícola de ba-Phiri, que não depende de fertilizantes químicos para aumentar o rendimento das safras. Nós plantamos árvores como musangu e Gliricida sepium, que ajudam a aumentar a fertilidade do nosso solo (nota do editor: o nome científico de musangu é Faidherbia albida).

Abraham: Charlton nos ensinou que este tipo de sistema agrícola é chamado de agroflorestamento. Ele requer que homens e mulheres trabalhem em conjunto. Os homens constroem os viveiros de árvores e limpam os campos. Mas as mulheres são mais cuidadosas na hora do transplante.

Anna: Você tem razão, exceto para transplantar as mudas espinhosas de musangu. A árvore de musangu também leva muito tempo para dar resultado e a maioria das mulheres não tem paciência. Mas, depois que o musangu está pronto, você não precisa de fertilizantes químicos para ter boa produção.

Filius: Esse musangu deve ser uma árvore maravilhosa. É aquela que vi atrás da casa, onde as cabras estavam pastando?

Abraham: Não, aquela é Gliricidia. Os seus benefícios não são tão duradouros quanto o musangu. Mas você começa a ter resultados no segundo ano de plantio.

Sithembile: Gliricidia também produz mais folhas, que são úteis para fazer composto e aumentar a matéria orgânica no solo. Os seus galhos não têm espinhos como musangu. Nós usamos os galhos como lenha, especialmente em fornos de cozimento com uso eficiente de combustível. Nós não precisamos mais ir muito longe para coletar lenha.

Ganizani: (rindo) As mulheres sempre falam sobre as coisas das mulheres. Não esqueça que o desflorestamento levou embora o nosso mel silvestre. Mas, formando matas de Gliricidia, começamos a manter novamente as abelhas. Mel é bom para a saúde e podemos vendê-lo facilmente na cidade.

Abraham: As árvores são o nosso teto. Elas protegem o nosso solo contra o sol e a erosão pelo vento e a água.

Ganizani: Você tem razão, Yokoniya. Também aprendemos diversos métodos bons de agricultura. Por exemplo, a lavoura mínima para controlar a erosão do solo, construção de bacias de plantio, escavação para coleta de água e também cultivo em fileiras com Gliricidia.

Filius: Cultivo em fileiras: o que é isso?

Abraham: É o plantio de Gliricidia ou outros arbustos fixadores de nitrogênio junto com nossos produtos alimentícios em um campo. Além da sombra que fornece às nossas plantas produtoras, nós cortamos os ramos e os depositamos ao longo das fileiras onde eles apodrecem e fertilizam o solo, também ajudando a aumentar o teor de água no solo para as plantas. Em um campo como o meu, você também vê fileiras de grama correndo ao longo da encosta em intervalos.

Filius: A grama também é utilizada para o cultivo em fileiras?

Abraham: Não exatamente. Essa é grama de vetiver. Ela tem raízes fortes que retêm o solo no campo. Ela também é dura e brotará mesmo depois de ser queimada.

Charlton: (rindo) Estou muito feliz em ver como todas vocês se tornaram boas defensoras do agroflorestamento e aprenderam os maus efeitos do corte de árvores sem cuidado. Espero que esta mensagem se espalhe para outros agricultores na sua região!

Abraham: Sim, é claro. Realmente não precisamos sair gritando. As pessoas verão os resultados em nossos campos!

Filius: Amigos, Abraham está certo. O corte de árvores sem cuidado traz maus resultados. Se você tem sorte de ter florestas naturais ao seu redor, por favor, conserve-as e cuide bem delas. Mas, se o seu campo é estéril e o seu solo é ruim com risco de erosão, use o agroflorestamento, como o Grupo de Conservação de Yokoniya.

Termino aqui, mas voltarei na semana que vem com outro tópico sobre a conservação dos recursos naturais para o nosso próprio bem e para o bem do planeta.

Se você precisar de mais informações sobre o tema de hoje, entre em contato com Charlton Phiri no Escritório de Serviços Técnicos do Ministério de Agricultura de Zâmbia, e Emma Sakala, a técnica florestal.

Ou comigo.

Teremos prazer em ajudá-lo.

Vinheta de encerramento


Créditos:

Contribuição de Filius Chalo Jere, produtor de programas de rádio para agricultores, Breeze FM, Chipata, Zâmbia.

Revisão: Miguel Calmon, Gerente Sênior, Restauração de Terrenos Florestais, União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).

Fontes de informação:

Entrevistas:

  • Charlton Phiri, Escritório de Serviços Técnicos, Ministério da Agricultura e Pecuária, P. O. Box 510046, Chipata, 13 e 16 de fevereiro de 2015.
  • Emma Sakala, técnica florestal distrital, Chipata, 16 de fevereiro de 2015.
  • Abraham Yokoniya Mwale, Mphomwa, Mfuwe, 16 de fevereiro de 2015.
  • Membros do Grupo de Conservação de Yokoniya, Mfuwe, 16 de fevereiro de 2015.
  • Oyx Msachiwa, Total Land Care Maláui.

A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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