Agricultores de Níger beneficiam-se com o plantio de árvores nos seus campos

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 1º de julho de 2009, como parte do pacote de informações n° 88.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/package-88/farmers-in-niger-benefit-from-letting-trees-grow-in-their-fields/.


Observações para as emissoras:

Nas décadas de 1970 e 1980, muito foi escrito sobre a crise energética nos países do Sahel e em outras regiões áridas e semiáridas. Aparentemente, há uma distância grande entre as necessidades de energia da população – fornecidas quase exclusivamente pela madeira – e a capacidade das árvores e arbustos de atender a essa necessidade. Atualmente, o Sahel foi atingido por anos sucessivos de seca. A terra agrícola estendeu-se cada vez mais para zonas marginais, cuja vegetação foi destruída.

Aparentemente, a vegetação perto das cidades no Sahel estava sendo completamente destruída devido à necessidade em rápido crescimento de madeira para combustível para a população.

Atualmente, acredita-se que a vegetação do Sahel esteja diminuindo devido ao uso excessivo pela população. Embora isso esteja obviamente acontecendo em algumas partes do Sahel, há muitas áreas que estão experimentando aumento da vegetação lenhosa. No Níger, por exemplo, está ocorrendo aumento da vegetação lenhosa nas regiões de Tahoua, Maradi e Zinder. Em Tahoua, o plantio de árvores vem sendo organizado por projetos concentrados na reabilitação de terras estéreis, enquanto os agricultores também começaram a proteger árvores e arbustos que cresceram de forma natural novamente. Ao mesmo tempo, os criadores de animais estão protegendo a vegetação natural, como a espécie de árvore Acacia raddiana. Em Maradi, ONGs ajudaram agricultores a proteger e cuidar de árvores e arbustos que se regeneraram espontaneamente nas suas fazendas. Este processo começou em meados da década de 1980. Mais recentemente, um projeto no distrito de Aguié sustenta a criação de organizações locais para proteger, cuidar e fazer uso de árvores nas fazendas. Em Zinder, um grande agricultor conseguiu a regeneração natural.

Este roteiro discute a Regeneração Natural Administrada pelos Agricultores (FMNR, da sigla em inglês). FMNR é uma prática adotada por agricultores, que consiste na proteção e administração do novo crescimento de árvores e arbustos nos campos. FMNR beneficia os agricultores, trazendo de volta a vegetação lenhosa. Os agricultores quase sempre concentram-se em trazer de volta árvores e arbustos com valor econômico.

É surpreendente aprender que a regeneração natural protegida e administrada pelos agricultores em campos produtores vem recebendo pouca atenção. Muito poucas autoridades nacionais e internacionais a conhecem e existem poucas publicações sobre esse tema. Mas um estudo afirma que a Regeneração Natural Administrada pelos Agricultores vem apresentando impacto positivo sobre pelo menos cinco milhões de hectares de terra cultivada no Níger. Se este dado for preciso, é um caso único no Sahel e provavelmente em toda a África.

Este roteiro é baseado em entrevistas reais. Você poderá utilizá-lo como inspiração para pesquisar e escrever um roteiro sobre um tema similar na sua região. Ou poderá decidir produzir este roteiro na sua emissora, utilizando radioatores para representar as pessoas. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas originalmente envolvidas nas entrevistas.


Roteiro:

Apresentador: Bem-vindo, ouvinte. Hoje vamos falar sobre uma prática agrícola denominada Regeneração Natural Administrada por Agricultores, que é praticada por muitos agricultores no sul do Níger. Na Regeneração Natural Administrada por Agricultores, os agricultores protegem e administram ativamente o retorno do crescimento de certos tipos de árvores nos seus campos, para trazer de volta a vegetação em regiões áridas e aumentar a sua produção agrícola e a sua renda. As espécies que eles utilizam são quase sempre aquelas com valor econômico – em outras palavras, as espécies produtoras de frutos, lenha e outros produtos. A prática é denominada Regeneração Natural Administrada por Agricultores, para diferenciá-la do plantio de árvores e da administração de locais naturalmente arborizados. Este programa apresenta as razões pelas quais os agricultores da região de Maradi, no sul do Níger, começaram a proteger o retorno natural do crescimento de árvores e arbustos nos seus campos, como eles cuidam dessas árvores e arbustos e os impactos da Regeneração Natural Administrada por Agricultores sobre a sua vida diária.

A Regeneração Natural Administrada por Agricultores na região de Maradi, no sul do Níger, começou com o trabalho feito pela ONG Serving-in-Mission, ou SIM, na década de 1980, por meio do Projeto de Desenvolvimento de Maradi. Em seguida, houve um projeto financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, o IFAD, no distrito de Aguié, que se concentrou em Regeneração Natural Administrada por Agricultores. Em 1999, 88% das pessoas consultadas nas aldeias do projeto e em aldeias fora do escopo do projeto praticaram Regeneração Natural Administrada por Agricultores em algum grau nos seus campos. Como resultado, cerca de 1.250.000 árvores adicionais foram agregadas à zona do projeto todos os anos.

Eu entrevistei o Sr. Ali Micko, que vem participando do projeto no distrito de Aguié, na região de Maradi. Olá, Sr. Micko. Meu nome é Lawali Mamane Nassourou, da ONG Le Micro Vert. Nossa entrevista hoje será sobre a Regeneração Natural Administrada por Agricultores. O sr. pode começar apresentando-se?

Ali: Meu nome é Ali Micko e sou um agricultor e presidente de um grupo de moradores locais em Dan Saga.

Apresentador: Quando o sr. começou a observar a degeneração da vegetação nos seus campos?

Ali: A vegetação começou a diminuir nos anos 1960 e atingiu o seu mínimo na década de 1970. A deterioração foi causada principalmente pela destruição de todas as árvores e pelo abandono da prática de deixar a terra em descanso.

Apresentador: O que fez com que o sr. mudasse suas práticas agrícolas?

Ali: A situação ficou difícil para todos os agricultores. A terra ficou impraticável, a areia cobriu nossas safras e a lenha ou árvores com múltiplos usos eram raras. Nós mudamos nossas práticas agrícolas para deixar as árvores jovens nos campos. Esta ideia foi apoiada por um projeto organizado pela CARE International.

Apresentador: Como o sr. mudou suas práticas agrícolas?

Ali: Em algum momento, todos perceberam a importância de deixar árvores jovens ou brotos nos campos. Os agricultores começaram a adotar essas práticas de limpeza aprimoradas com o apoio do projeto. Também cuidamos de brotos e plantas jovens que cresceram novamente sobre as raízes de árvores mais velhas. Além disso, criamos uma estufa com espécies de árvores locais, como Hyphaene thebaica, Acacia albida e Parkia biglobosa (nota do editor: veja os nomes locais no final do roteiro). Também começamos a usar os resíduos das árvores – folhas mortas, cascas e ramos que caíram no chão – como adubo verde.

Apresentador: Quando o sr. observou que esses esforços estavam tendo impacto positivo sobre a vegetação nos seus campos?

Ali: Os nossos esforços datam de 25 anos atrás, mas eles foram adotados em maior escala cerca de 18 anos atrás.

Apresentador: Quais foram os impactos sobre a sua produção?

Ali: Quando a vegetação foi completamente destruída, o rendimento de milho por hectare era de apenas 90-120 quilos ou cerca de 13-17 ramos. Agora, com o aumento da vegetação, conseguimos 315 a 455 quilos por hectare. Se usarmos fertilizante mineral, o rendimento pode atingir 700 quilos por hectare.

Apresentador: como a Regeneração Natural Administrada por Agricultores afetou a sua renda?

Ali: A agricultura agora é lucrativa. As árvores fornecem forragem para os animais, madeira para venda, para combustível e para construção. Durante a crise alimentar de 1999-2000, a maior parte das residências por aqui conseguiu sobreviver, graças à venda de madeira.

Apresentador: Quais foram os impactos sobre os trabalhos feitos pelas mulheres?

Ali: Com o aumento da vegetação, os homens cortam madeira nos seus campos e a transportam para casa usando carrinhos comprados com a renda da agricultura, silvicultura e criação de animais. Com isso, as mulheres têm muito menos trabalho para encontrar, cortar e carregar madeira. Além disso, parte da renda das vendas de madeira é usada para comprar água e moer grãos. Antes, as mulheres faziam esse trabalho.

Apresentador: Como você administra essa nova riqueza?

Ali: Desde o começo desta nova abordagem, temos um comitê supervisor de homens e mulheres. O comitê é encarregado de monitorar os esforços feitos pelos agricultores e relatar aos chefes das aldeias quando as pessoas violam as regras da comunidade sobre a forma de tratar os campos. Quando as árvores crescem mais, formamos um comitê de administração, que reúne algumas aldeias da região de Dan Saga. Com o apoio do IFAD e dos serviços ambientais do governo, o comitê abriu um mercado rural para madeira, administrado pela comunidade. A renda desse mercado é dividida em parcelas que são investidas em Regeneração Natural Administrada por Agricultores, na comunidade, nos serviços ambientais do governo e no comitê. O mercado é sustentado pela madeira comprada dos moradores locais que vendem as árvores dos seus campos.

Apresentador: Obrigado, Ali, pela entrevista e por compartilhar suas experiências conosco.

Ali: Nós agradecemos a você por vir aqui e por mostrar interesse no nosso modo de vida.


Créditos:

Contribuição de Sanoussi Mayana, Presidente da ONG internacional RDD Le Micro Vert, parceira da Farm Radio International.

Revisão: Chris Reij, Centro de Cooperação Internacional, Universidade VU, Amsterdã.

Fontes de informação:

Nomes comuns das espécies de árvore mencionadas no roteiro:

Acacia raddiana, também conhecida como Acacia tortilis:
Árabe: talh, sayal, hares
Inglês: umbrella thorn
Fulani: chilluki
Kanuri: kindil
Kouka: garatt
Mauritânia: tamat
Suaíli: munga
Toucouleu: bakan tchili,
Wolof: sandandour
Hyphaene thebaica:
Amárico: zembaba
Árabe: dom
Inglês: gingerbread tree. doum palm
Suaíli: mkoma
Tigrigna: arkobkobai, kambash

Acacia albida, também conhecida como Faidherbia albida:
Africâner: anaboom
Amárico: grar
Árabe: afrar, harac, haraz
Bambara: casala
Inglês: winter thorn, apple ring thorn tree, apple ring acacia, ana tree, white thorn,
Francês: arbre blanc, kad
Ndebele: npumbu
Português: espinheiro-de-angola, espinneiro
Sepedi: mogabo
Setswana: mokosho
Shona: mutsangu
Suaíli: mgunga, mkababu
Tigrigna: aqba, garsha, momona
Venda: muhoto
Wolof: cad
Zulu: umHlalankwazi

Parkia biglobosa:
Bambara: nere
Diola: enokay
Inglês: African locust bean tree, nitta nut, monkey cutlass tree
Francês: arbre à farine, mimosa pourpre, néré, néré (Senegal)
Gourmantché: budugu
Hausa: dadawa, dawa dawa
Kanuri: runo
Mandinka: nér, nété, netto
Suaíli: mkunde, mnienze
Mooré: duaga ou ruaga
Português: farroba
Wolof: houlle


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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