Agricultores aumentam a produção com práticas tradicionais de construção do solo que restauram e fertilizam solo degradado

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 24 de março de 2015, como parte do pacote de informações n° 101.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/101-getting-and-using-audience-feedback-and-evaluating-radio-programs/farmers-improve-yields-with-traditional-soil-building-practices-that-restore-and-fertilize-damaged-soils/.


Observações para as emissoras:

Burkina Faso é um país no coração da África ocidental. A desertificação ou secagem progressiva da terra piorou no país ao longo das quatro últimas décadas devido à seca. A erosão causada pela água e pelos ventos e o impacto de atividades humanas como a agricultura degradaram os solos significativamente. Chuvas escassas e irregulares também dificultam a agricultura e as mudanças climáticas complicam ainda mais as vidas dos agricultores.
Mas os agricultores do Planalto Central de Burkina Faso estão lidando com esta situação com sucesso usando métodos tradicionais como zai, meias luas e linhas de pedras. Com isso, muita terra que foi danificada agora é apropriada para agricultura e os agricultores estão recebendo melhores rendimentos.

Neste roteiro, nós nos reunimos com agricultores locais e um especialista agrícola que compartilham suas experiências na restauração de terrenos degradados.

Este roteiro é baseado em entrevistas reais. Você poderá transmitir este roteiro na sua emissora, usando atores para representar os personagens. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas envolvidas nas entrevistas originais.
Você poderá também usar este roteiro como inspiração para pesquisar e desenvolver um programa de rádio sobre formas de recuperar solos danificados e terras degradadas na sua própria região.

Caso você decida utilizar este roteiro como inspiração para criar o seu próprio programa, você poderá falar com agricultores e outros especialistas e formular as seguintes questões:

  • Se existirem terras degradadas na sua região, como as terras e o solo foram degradados?
  • Quais soluções os agricultores encontraram para recuperar esses solos?
  • Quais são os desafios ou barreiras para a adoção dessas soluções? Os agricultores encontraram soluções para esses desafios ou barreiras?

Além de falar diretamente com os agricultores e outros participantes importantes do setor agrícola local, você poderá usar essas questões como base para um programa de chamadas telefônicas ou mensagens de texto.

O tempo estimado de condução deste roteiro é de quinze minutos, incluindo a introdução e o encerramento.


Roteiro:

Apresentador: Nós estamos em Tanlili, uma grande aldeia de 2600 pessoas no distrito rural de Zitenga, noroeste de Ouagadougou, a capital de Burkina Faso. Tanlili indica “escondido pelas montanhas” em mooré, um idioma local. A aldeia é montanhosa e os solos têm coloração vermelha escura e sofreram erosão. Estamos na estação seca e poucas plantas, além das árvores de carité, podem ser observadas até onde a vista alcança. Mas, nesta aldeia, os agricultores restauraram com sucesso as terras degradadas sem métodos tradicionais como zai, meias luas e linhas de pedras. Hamidou Ouédraogo é o presidente da união de associações de aldeias. Ele explica.

Hamidou Ouédraogo: (revoltadamente) A ferrovia cruza a nossa aldeia. Quando a ferrovia foi construída, as escavadoras cavaram a terra e usaram o solo para fazer o leito dos trilhos da ferrovia. Por isso, nossos solos estão muito degradados e há buracos e enormes espaços vazios em toda parte, com redução significativa da área de cultivo.

Precisamos alimentar nossas famílias, nossos filhos, nossas esposas e animais. Como faremos isso se nossas terras estavam secas e as chuvas diminuíam – e não podíamos nem prever quanto tempo durariam as chuvas? Precisamos encontrar técnicas agrícolas para lidar com a situação. É por isso que adotamos zai, meias luas e linhas de pedras. Esses métodos nos forneceram bons resultados e agora podemos ter rendimento de produção para sustentar nossas famílias.

Apresentador: A forma de introdução de zai em Tanlili é uma história interessante. O presidente nos contará sobre ela.

Hamidou Ouédraogo: Estávamos procurando formas de aumentar a fertilidade do solo quando soubemos do método zai. Este método é adequado para solos secos e degradados e os resultados são promissores. Ousséni Zoromé vive em Ouahigouya, a cerca de 200 km ao norte de Ouagadougou. Algum tempo atrás, ele retornou à sua aldeia após alguns anos na Costa do Marfim. Ele notou que a terra da sua família havia se tornado seca, dura e degradada. Por isso, ele usou zai na sua terra e foi bem sucedido. De fato, ele conseguiu boas safras na terra que parecia inadequada para agricultura. Foi ele quem nos ensinou as técnicas de zai em 1989.

Apresentador: Caros ouvintes, estou certo de que vocês estão ansiosos para aprender sobre zai, como funciona e que tipo de equipamento é necessário. Não se preocupem! A explicação vem a seguir.

Intervalo musical de dez segundos

Apresentador: Zai quer dizer “aprontar-se com antecedência” no idioma local, mooré. É uma técnica agrícola tradicional que ajuda a restaurar e aumentar o valor de terrenos degradados que são inadequados para agricultura. Para aprender mais, aqui está o agente de extensão rural Omar Ouédraogo.

Omar Ouédraogo: (sorrindo e com voz confiante) Vou descrever a técnica de zai. Os buracos de zai possuem 20-30 centímetros de diâmetro e 15-20 centímetros de profundidade. Eles são cavados com picareta. Os agricultores cavam zai durante a estação seca, preferencialmente dois ou três meses antes da estação chuvosa, de forma que os materiais orgânicos e areia sejam depositados pelo vento no buraco de zai.

Os agricultores dispõem os buracos de zai em linhas alternadas ao longo do contorno de um morro. Eles deixam 40 a 100 centímetros entre cada buraco de zai em uma linha e 80 centímetros entre as linhas. Os buracos de zai retardam o fluxo de água da superfície e ajudam o solo a reter a quantidade máxima de água.

Os agricultores preenchem cada buraco de zai com dois ou três punhados de esterco uma vez a cada dois anos. Eles plantam sementes nos buracos de zai quando o solo está bem molhado após as primeiras chuvas. As sementes são cultivadas no interior e em volta das extremidades do buraco de zai, mas não no meio do buraco de zai. Os agricultores cavam com a enxada dentro do buraco de zai. O rendimento de safra pode atingir 750 a 800 kg por hectare.

Apresentador: Os buracos de zai podem permitir aos agricultores recuperar terras quando o solo está tão degradado que foi abandonado. Eles podem aumentar a fertilidade do solo e a produção. A prática de zai trouxe grandes benefícios para as pessoas em Tanlili. Aqui estão algumas agricultoras locais para contar.

Kalifa Congo: (entusiástica e muito determinada) Estamos satisfeitos com o uso de zai. Essa técnica nos permite aumentar o valor das nossas terras degradadas e restaurar terras antigas abandonadas para agricultura. O trabalho com enxada é fácil, pois é feito dentro dos buracos de zai. Meu rendimento aumentou e meus estoques de grãos estão sempre cheios. A falta de produto durante a entressafra entre o cultivo e a colheita agora é apenas uma má recordação. Zai faz a vida valer a pena novamente.

Sibdou Ouédraogo: (voz tímida mas controlada) Antes de adotar zai, nossos maridos costumavam cultivar uma grande quantidade de terra e conseguiu pouco rendimento. Agora, eles usam menos terra e conseguem maior produção. Nossos pés de milho e sorgo estão fortes e as sementes são grandes. Zai permitiu às mulheres restaurar terras abandonadas e usá-las na agricultura. As mulheres cultivam vários produtos que atendem às suas necessidades, como roupas, produtos de beleza e livros para as crianças.

Rihanata Sinaré: (muito calma e assertiva) Graças ao zai, agora temos terra para cultivar amendoins, amendoins Bambara e outros produtos. As disputas de terra entre os maridos e as esposas terminaram. As mulheres não precisam mais depender tanto dos seus maridos. Elas podem ser independentes dos maridos para algumas necessidades.

Souleymane Congo: Graças ao zai, os jovens se tornaram parcialmente independentes em Tanlili. Podemos construir casas com teto de folhas e podemos comprar motocicletas e outras coisas de que gostamos, pois há renda suficiente e nossos pais podem economizar dinheiro para as necessidades da família. Os agricultores também não precisam usar a renda da criação de animais para comprar milho. As famílias podem usar esse dinheiro para comprar pequenos presentes para si próprias.

Apresentador: Como é encorajador ouvir essas histórias! Elas não mostram que o trabalho árduo é a chave para o sucesso? Vamos agora aprender sobre meias luas, outra técnica que aumenta a fertilidade do solo.

Cinco segundos de música

Apresentador: Meias luas são estruturas em forma de semicírculo feitas com terra e que são construídas sobre terras degradadas. As plantas são cultivadas dentro das meias luas. Elas ajudam a restaurar as terras degradadas reduzindo a erosão do solo causada pela água que flui pelo morro abaixo. As meias luas capturam o fluxo de água e solo e ajudam a estabilizar o solo em fortes inclinações. Tudo isso ajuda as plantas dentro da meia lua a ficarem fortes e terem bom rendimento. Como construir meias luas? Vamos ouvir novamente o agente de extensão rural.

Omar Ouédraogo: As meias luas são construídas sobre superfícies planas e terras inclinadas. Meias luas são semicírculos. Você desenha um círculo com diâmetro de um a cinco metros, mas usa apenas uma metade do círculo.
Esta é a meia lua. Você cava o solo da meia lua até uma profundidade de 20 a 40 centímetros e cria uma borda ou cume na extremidade. Em seguida, adicione um pouco de esterco para fertilizar o solo. As meias luas são cavadas através da inclinação em fileiras alternadas. Em outras palavras, você constrói quatro meias luas em cada canto de um quadrado e uma quinta no meio do quadrado.

A borda de terra abaixo de cada meia lua deve ser calcada. Isso ajuda a meia a lua a resistir melhor ao fluxo de água. A borda de terra abaixo da meia lua deverá ter de 30 a 60 centímetros de largura. Você pode reforçar as bordas colocando pedras ou mudas de grama perene como grama alta, com uma linha de pedras ou mudas de grama perene como grama alta. Isso ajuda as bordas de terra a resistir melhor ao fluxo de água (nota do Editor: o nome científico da grama alta é Andropogon gayanus; ela também é conhecida pelos nomes comuns grama gama, onga e grama azul da Rodésia).

Apresentador: Os agricultores não constroem meias luas aleatoriamente. Eles seguem um padrão definido. Vamos ouvir de novo o agente de extensão rural.

Omar Ouédraogo: Caros agricultores, vocês precisam dispor as meias luas de forma que haja pouca terra entre elas. O espaço entre as meias luas ao longo da inclinação é de meio metro a um metro. Quando uma meia lua é cheia com fluxo de água, a água em excesso sai pelos lados da borda de terra e é capturada pela próxima meia lua abaixo. Mas a borda de terra evita que o esterco seja levado pelo fluxo de água. Se você cavar meias luas no fundo de uma inclinação e elas receberem água suficiente para destruir a estrutura, você deverá construir uma vala de proteção com 40 centímetros de largura e 30 centímetros de profundidade no topo da inclinação, acima das linhas das meias luas.

Intervalo musical

Apresentador: Existem outros detalhes que exigem a atenção dos agricultores durante a construção de meias luas? Aqui está o agente de extensão rural.

Oumar Ouédraogo: Os agricultores cultivam as sementes no meio das meias luas e as plantas crescem bem porque as meias luas capturam água e solo que fluem pelo morro abaixo. A profundidade da meia lua é importante. Como mencionei, elas deverão ter de 20 a 40 centímetros de profundidade. Se as meias luas forem profundas demais, a água permanece na cova por muito tempo e as sementes provavelmente se afogarão.

Apresentador: As meias luas são muito eficazes, mas os agricultores de Tanlili não gostam delas porque é necessário muito trabalho. Ouça estes agricultores.

Amado Ouédraogo: (em voz persuasiva) De fato, as meias luas trazem benefícios, mas a sua construção exige muito esforço. É por isso que os agricultores preferem zai em vez de meias luas. De fato, para construir uma meia lua, você precisa de muitas pessoas. Você precisa cavar meios círculos com um a cinco metros em solo muito duro e degradado. E as meias luas necessitam de quantidade razoável de esterco. O trabalho leva muitas horas e os agricultores nem sempre podem pagar pelo equipamento necessário.

Assèta Sawadogo: As mulheres não usam meias luas porque não temos a força nem o dinheiro para isso. Não somos suficientemente fortes para cavar meias luas, nem temos carrinhos para transportar esterco. Por isso, essa técnica não é disponível para nós. Mas notamos que os que a utilizaram têm bons rendimentos, especialmente quando a chuva não é muito escassa.

Apresentador: Zai e meias luas são mais eficazes se forem protegidas por linhas de pedras. Pode haver muitas linhas de pedras em um campo.Como elas ajudam? Aqui está novamente o agente de extensão rural.

Omar Ouédraogo: Os agricultores constroem linhas de pedras ao longo de uma colina para reduzir a velocidade do fluxo de água. Quando você reduz a velocidade da água, você permite que ela se infiltre no solo. Você também captura os materiais orgânicos que são carregados com o fluxo de água e eles fertilizam o solo. As linhas de pedras aumentam o rendimento das safras.

Apresentador: Como vocês constroem linhas de pedras? Por exemplo, de quais materiais vocês precisam?

Omar Ouédraogo: Você precisa dos seguintes materiais para construir linhas de pedras: um rolo de corda, palitos, um nível de água, um triângulo, um carrinho para mover pedras e, naturalmente, pedras. Primeiro, você marca as linhas de contorno ao longo da encosta do morro, usando um nível de água e um triângulo. Você insere um palito a cada três ou quatro metros ao longo da linha de contorno para orientar a criação de um sulco. Em segundo lugar, você faz o sulco com 10 a 20 centímetros de profundidade e 15 a 20 centímetros de largura ao longo da linha de contorno, onde irá colocar as pedras. As pedras devem ser alinhadas, de forma a agir como barreira para reduzir a velocidade do fluxo de água pelo morro abaixo. O espaço entre as linhas de pedras é de 30 a 45 metros. Em outras palavras, você constrói uma linha de pedras a cada 30 a 45 metros ao longo da colina do morro.

Apresentador: A combinação de meias luas ou zai com linhas de pedras ajuda a restaurar terra degradada e aumenta a produção. Vamos ouvir de alguns agricultores como as linhas de pedras os ajudaram.

Naaba Compaoré: As linhas de pedras reduzem a erosão da água. Em vez de causar erosão do solo à medida que corre morro abaixo, a água reduz sua velocidade e infiltra-se no solo, permitindo seu umedecimento. As linhas de pedras capturam material orgânico que é carregado pelo morro abaixo com a água. Isso alimenta o solo e ajuda as plantas a crescer. Eu diria que as linhas de pedras permitem boa distribuição do fluxo de água nos campos.

Amado Ouédraogo: Eu agregaria que as linhas de pedras protegem zai e meias luas. Elas evitam que a água destrua as meias luas e danifiquem os buracos de zai. Elas também permitem que os buracos de zai e as meias luas sejam bem embebidos e permaneçam úmidos por mais tempo. As plantas podem então suportar secas extensas.

Apresentador: Os agricultores parecem felizes com essas técnicas. Mas, apesar dos bons rendimentos fornecidos pelas meias luas, os pequenos agricultores ainda não são atraídos por elas. Elas exigem muito trabalho. Para as mulheres, zai encerrou as disputas que elas costumavam ter com seus maridos em casa. Segundo Rihanata Sinaré, as mulheres agora têm terra suficiente para cultivar amendoins e ervilhas. Mas essas técnicas somente são eficazes se houver chuva suficiente. Elas não funcionam bem em secas extremas.

Vamos terminar a discussão aqui. Obrigado pela audiência. Depois de ouvir a satisfação dos agricultores, encerraremos com essa nota alegre. Até o próximo programa.


Créditos:

Contribuição de G. Adama Zongo, jornalista.

Revisão: John FitzSimons, Professor Associado, Departamento de Desenvolvimento e Planejamento Rural, Universidade de Guelph, Canadá.

Fontes de informação:

Entrevistas conduzidas em 13 de janeiro de 2015 com:

  • membros da União de agrupamentos de aldeias Namanegbzanga de Tanlili (UNGV-T): agricultores Kalifa Congo, Sibdou Ouédraogo, Rihanata Sinaré, Souleymane Congo, Amado Ouédraogo e Assèta Sawadogo; e
  • Oumar Ouédraogo, técnico de agroflorestamento e conservação do solo e água, Agroflorestamento e Conservação da Água e Solo (CESAF), Federação Nacional de Agrupamentos Naam (FNGN), Ouahigouya.

Agradecimentos:

  • Issouf Sanou, gerente de programas, FENOP (Federação Nacional das Organizações Civis de Burkina Faso).
  • Hamidou Ouédraogo, presidente da União de agrupamentos de aldeias Namanegbzanga de Tanlili (UNGV-T).
    Projeto realizado com apoio financeiro do Governo do Canadá, por meio do Ministério de Assuntos Externos, Comércio e Desenvolvimento (DFATD).

Este roteiro foi escrito com o suporte da Irish Aid.


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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