Agricultores trabalham em conjunto para armazenar sorgo muskuwaari com segurança no norte de Camarões

Material produzido pela Rádio Rural Internacional em 24 de março de 2015, como parte do pacote de informações n° 101.

Original em inglês disponível em: http://www.farmradio.org/radio-resource-packs/101-getting-and-using-audience-feedback-and-evaluating-radio-programs/farmers-work-together-to-safely-store-muskuwaari-sorghum-in-northern-cameroon/.


Observações para as emissoras:

Muskuwaari é uma palavra em língua fula que designa sorgo de estação seca que é transplantado ao final da estação chuvosa. Variedades comuns de muskuwaari incluem safraari, majeeri, burguuri e ajagamaari.

Muskuwaari é cultivado ao longo de uma ampla área que vai da Nigéria até o Sudão. Na Nigéria, ele é chamado de masakwa; no Chade, berbere.

Para saber mais sobre o cultivo de muskuwaari e seus benefícios, veja o item n° 9 neste Pacote de Recursos, incluindo as observações para os radialistas.

Este roteiro mostra como armazenar muskuwaari colhido. Ele ensina mais especificamente como armazenar muskuwaari e outras safras de grãos em climas quentes e secos, de forma a manter os grãos seguros contra insetos pragas, roedores e doenças. Ele também fala, de forma mais geral, sobre o controle de pragas no cultivo da planta muskuwaari.

O roteiro também fornece detalhes sobre as principais formas de processamento de muskuwaari, em mingau e farinha de sorgo.

Você poderá optar por apresentar este roteiro como parte do seu programa agrícola regular, usando as vozes de atores para representar as pessoas. Se o fizer, não se esqueça de dizer aos seus ouvintes no início do programa que as vozes são de atores e não das pessoas originais do roteiro.

Você poderá também usar este roteiro como inspiração para pesquisar e desenvolver um programa de rádio sobre o manuseio de sorgo pós-colheita, sobre outros produtos da estação seca ou sobre outros produtos cultivados em climas desfavoráveis na sua região.

Caso você decida utilizar este roteiro como inspiração para criar o seu próprio programa, você poderá falar com agricultores e outros especialistas e formular as seguintes questões:

  • Como os agricultores armazenam os seus produtos nesta região?
  • Quais medidas os agricultores deverão tomar para garantir que os seus produtos armazenados fiquem livres de insetos, roedores e doenças durante a armazenagem?
  • Existem desafios ou barreiras (financeiras, práticas etc.) para seguir essas melhores práticas? Em caso afirmativo, os agricultores encontraram formas de superar esses desafios e barreiras?
  • Como os agricultores processam sorgo na sua região? Quais são os principais alimentos processados?
  • Quais medidas os agricultores necessitam tomar para garantir a segurança dos alimentos processados?

Além de falar diretamente com os agricultores e outros participantes importantes do setor agrícola local, você poderá usar essas questões como base para um programa de chamadas telefônicas ou mensagens de texto. Não deixe de falar com homens e mulheres sobre essas questões. Homens e mulheres podem ter pontos de vista muito diferentes.

O tempo estimado de condução deste roteiro é de quinze minutos, incluindo a introdução e o encerramento.


Roteiro:

Apresentador: Caros ouvintes, hoje vamos saber como os agricultores locais no norte de Camarões estão trabalhando juntos para armazenar com sucesso um tipo de sorgo que é transplantado durante a estação seca e se chama muskuwaari. Vamos ouvir plantadores de muskuwaari em Yonkolé, uma aldeia no extremo norte de Camarões. Graças ao grupo formado pelos agricultores, eles operam um armazém em Salack, a cidade mais próxima de Yonkolé. Primeiro vamos conhecer o administrador do armazém em Salack. Bom dia. Poderia apresentar-se para os nossos ouvintes, por favor?

Mvoungou Samuel: Bom dia. Meu nome é Myoungaï Samuel e sou o administrador do armazém de muskuwaari em Salack.

Som de porta se abrindo. Som de passos.

Apresentador: Estamos no interior do armazém e há sacos empilhados em toda parte. Quem são os donos de todos estes sacos e que condições são necessárias para armazenar aqui o muskuwaari?

Mvoungou Samuel: Existem no momento 525 sacos de 100 kg cada neste armazém. Eles contêm sorgo de estação seca, que pertence aos membros do grupo de agricultores de muskuwaari de Yonkolé. Após a colheita, cada membro pode armazenar aqui as suas safras por 500 francos CFA por saco, por estação de colheita. Este dinheiro é utilizado para comprar inseticidas de armazenagem e para a manutenção do armazém, por exemplo, se houver uma goteira ou se for preciso trocar um cadeado.

Apresentador: Quais critérios uma pessoa precisa atender para tornar-se um administrador de armazém?

Mvoungou Samuel: Fui escolhido para este trabalho porque sou um dos poucos que sabem ler e escrever.

Apresentador: Que tipo de inseticida você usa e por quê?

Mvoungou Samuel: Usamos um pó que espalhamos sobre os sacos e nos cantos do armazém uma vez a cada seis meses. Isso evita que gorgulhos e camundongos ataquem os grãos. Usamos um saco de pó pequeno para quatro sacos de grãos.

Apresentador: E você, Samuel? Quais são as suas tarefas neste armazém?

Mvoungou Samuel: Primeiro preciso manter o armazém limpo. Eu varro os corredores e o pátio do armazém. Venho duas vezes por semana para abrir as portas e deixar o ar entrar. Eu registro os estoques que entram e que saem. Quando as pessoas trazem os seus sacos, escrevo seus nomes, a data e o número de sacos que eles trazem. Eu assino o livro e a pessoa também assina. Então escrevo o nome do dono sobre os seus sacos antes de arrumá-los no armazém. Quando eles voltam para pegar seus sacos, também anoto a data e o número de sacos que eles levaram. Confiro para que ninguém leve os sacos de outra pessoa. No final do dia, fecho o armazém e levo as chaves. Eu também informo aos demais quando surgem problemas, como goteiras.

Apresentador: Vejo que este armazém foi construído com cimento e é diferente das casas da aldeia, que são de terra e palha. Quem construiu este armazém e de onde veio o dinheiro?

Mvoungou Samuel: Os membros do grupo de agricultores de muskuwaari forneceram cerca de 40% dos fundos e a diocese católica de Maroua forneceu o restante para construir o armazém, dez anos atrás.

Apresentador: Você recebe por este trabalho?

Mvoungou Samuel: Eu recebo pagamento em dinheiro. Voluntariamente, por solidariedade, os membros do grupo frequentemente decidem me pagar em dinheiro e um pouco de sorgo. Parte da taxa de 500 francos paga pelos membros é usada para comprar inseticidas e a outra parte é mantida para potenciais problemas, como goteiras ou troca de cadeados. Fui escolhido para este trabalho porque sou um dos poucos que sabem ler e escrever.

Alguém bate à porta. Cumprimentos.

Apresentador: Caros ouvintes, acaba de entrar uma senhora no armazém. Bom dia. Poderia apresentar-se?

Agathe Koulsoumi: Bom dia. Meu nome é Agathe Koulsoumi e sou membro do grupo de agricultores de muskuwaari de Yonkolé. Tenho aqui dez sacos de muskuwaari e vim pegar um deles.

Apresentador: Sra. Koulsoumi, o que a sra. vai fazer com o seu saco de sorgo?

Agathe Koulsoumi: Vou processar cerca de um quarto em farinha para minha família e vender o restante.

Apresentador: Poderia explicar para nós como a sra. processa o sorgo?

Agathe Koulsoumi: Para fazer farinha que será usada para cozinhar um prato que chamamos de “cuscuz”, lavamos os grãos, secamos e moemos em um pilão para descascá-los. Em seguida, moemos em um moinho de grãos antes de peneirar para obter um pó fino. Usamos esse pó para fazer o cuscuz. Mas, se você quiser fazer mingau para um bebê, é preciso primeiro mergulhar os grãos em água por dois dias antes de moê-los. Isso cria uma pasta, que depois você usa para fazer mingau. Você pode também fazer uma cerveja local chamada bil bil. Neste caso, o processo é mais longo e mais difícil. Você precisa mergulhar os grãos em água suficiente para cobri-los totalmente por alguns dias e depois moê-los. Depois de moer, você fermenta os grãos em água adicionando outros ingredientes, como uma pequena quantiade de álcool e casca de certas árvores. Mais tarde, você filtra a mistura para recolher a cerveja. Todo o trabalho de processamento é manual, exceto pelo moinho que você usa para moer os grãos.

Apresentador: O processamento parece um pouco difícil, especialmente fazendo tudo manualmente. Não seria mais eficiente processar uma quantidade maior com menos frequência?

Agathe Koulsoumi: O problema é que o sorgo processado não pode ser armazenado por muito tempo. A farinha utilizada para fazer cuscuz pode ser mantida por uma semana, no máximo. Depois de uma semana, a farinha não tem o mesmo sabor quando você cozinha e ela é atacada por insetos. Por isso, processamos os grãos pouco antes de preparar a comida. Você também não pode armazenar a pasta usada para fazer mingau por muito tempo. Depois de dois dias, a pasta começa a fermentar e o mingau fica azedo. Você pode armazenar a pasta por um mês ou mais na geladeira, mas nós não temos refrigerador.

Som de motocicleta, que acelera e para. Passos vêm em direção ao armazém. Cumprimentos.

Apresentador: Vamos dar as boas vindas a outro convidado que acaba de chegar ao armazém. Bom dia! O sr. poderia apresentar-se?

Issa Mbourou: Bom dia. Sou Issa Mbourou, membro do grupo de agricultores de muskuwaari de Yonkolé. Tenho doze sacos de sorgo aqui.

Apresentador: O que o fez decidir manter sua produção em um armazém comunitário, em vez de um celeiro em casa?

Issa Mbourou: Preferimos armazenar nossos sacos aqui porque o lugar é bem adaptado para a armazenagem de grãos. Construímos um piso de cimento e o armazém é grande, bem ventilado e seco. É muito conveniente e barato para os membros ter um administrador de armazém tomando conta dos nossos grãos armazenados.

Apresentador: O que acontece depois da colheita, antes dos grãos serem armazenados aqui? Quais etapas são tomadas, do campo até este armazém?

Issa Mbourou: Assim que o muskuwaari está pronto para a colheita, cortamos as cabeças das sementes e as colocamos sobre um tapete de junco para secar por uma ou duas semanas. Em seguida, batemos as cabeças de sementes com palitos. Quando você bate nas cabeças de sementes de muskuwaari, você separa os grãos. Isso é muito mais rápido que separar os grãos um a um da cabeça de semente. Depois de bater as cabeças de sementes, você precisa separar os grãos, dividir os grãos bons dos ruins e os grandes dos pequenos. Os grãos são recolhidos em seguida e colocados em sacos para armazenagem.

Apresentador: Vamos falar agora com uma especialista e ouvir a sua opinião. A Sra. Carine Mala é professora e cientista da Universidade de Maroua. Bom dia, Sra. Carine Mala.

Carine Mala: Bom dia para você e para os seus ouvintes.

Apresentador: Os plantadores de muskuwaari de Yonkolé dizem que usam produtos químicos, incluindo inseticidas, para proteger seus grãos contra roedores. O que a Sra. pensa a respeito?

Carine Mala: Geralmente, o uso de produtos químicos sempre causa impacto sobre o solo, as pessoas e os animais. Às vezes, o impacto é maior e, em outras vezes, é menor. É verdade que, depois de um certo período, os produtos químicos tornam-se menos venenosos para os seres humanos, sejam eles usados no campo ou contra roedores, que são a principal praga da armazenagem. No campo, recomenda-se utilizar rotação de safras e inseticidas biológicos contra a praga principal (a broca dos troncos) no lugar de produtos químicos.

Apresentador: Se você não usar inseticidas químicos no campo, como combater as brocas dos troncos?

Carine Mala: Existem diversos métodos. A rotação de safras, a destruição dos troncos que tenham sido atacados por brocas e ainda abrigam os insetos e o uso de inseticidas biológicos são formas eficazes de evitar o uso de produtos químicos. O muskuwaari é muito sensível às brocas. De fato, os agricultores precisam começar a proteger a produção de muskuwaari quando as plantas ainda estão no viveiro, pois os ovos depositados no viveiro continuarão a desenvolver-se após o transplante e apresentam impacto importante sobre o rendimento da safra. As brocas das vagens causam mau enchimento dos grãos e falta de cabeças de sementes. Após o transplante, os ovos eclodem em lagartas que perfuram as hastes. Elas se refugiam, alimentam-se e crescem dentro dos troncos, até a sua maturidade, quando os grãos ficaram duros. Os adultos então emergem e tornam-se parasitas do sorgo de umidade e do muskuwaari. Se o tratamento for eficaz no viveiro, os agricultores podem tratar novamente cada haste na etapa de transplante, no início da floração e na etapa de formação das cabeças, para garantir que nenhuma praga afete a produção.

Apresentador: Os agricultores dizem que eles também têm dificuldade para armazenar o muskuwaari depois do processamento.

Carine Mala: Sim. Como outros produtos, o muskuwaari é melhor armazenado no seu estado natural que após o processamento em produtos como farinha. Para boa armazenagem de grãos, é essencial que a planta atinja a maturidade, para garantir que os grãos tenham baixos níveis de fungos quando estiverem prontos para a armazenagem. Caso contrário, o muskuwaari será atacado mais rapidamente quando armazenado. Se os grãos estiverem bem secos, os agricultores podem armazená-los em sacos de juta, em um local seco e bem ventilado. Os gorgulhos gostam de umidade. É por isso que sempre dizemos aos agricultores que o seu local de armazenagem deve ser seco e os grãos devem estar bem amadurecidos e bem secos. Recomendamos que os agricultores sigam rigorosas medidas de higiene. O local de armazenagem, por exemplo, deverá ser limpo e varrido regularmente e as portas deverão ser abertas para ventilar o local e evitar mofo, gorgulhos e roedores, como ratos e camundongos. Neste clima quente e seco, em que as condições do tempo proporcionam secagem ao sol para todos, acho que é mais prático deixar o grão amadurecer no campo e deixar a safra secar bem antes da armazenagem, processando pequenas quantidades para as necessidades da família.

Apresentador: Caros ouvintes, hoje aprendemos como os agricultores no extremo norte de Camarões trabalharam em conjunto para encontrar uma forma bem sucedida de armazenar os seus produtos. O grupo armazena os grãos em um armazém comunitário. Os membros do grupo de agricultores de muskuwaari contribuíram com fundos para a construção de uma instalação de armazenagem e pagam o administrador do celeiro em espécie. Armazenar grãos em grupo faz com que os agricultores individuais economizem o tempo de conduzir o monitoramento regular de locais de armazenagem, praticando boa higiene. Vale muito o pouco dinheiro que custa aos agricultores confiar as tarefas de armazenagem que protegem o muskuwaari armazenado contra as principais pragas de armazenagem e roedores a um administrador de armazém.


Créditos:

Contribuição de Anne Mireille Nzouankeu, jornalista freelancer, Yaoundé, Camarões.

Revisão: Carine Mala, Professora Assistente, Universidade de Maroua, Camarões.

Fontes de informação:

Entrevistas:

  • Mvoungou Samuel: produtor de sorgo, 17 de outubro de 2014.
  • Agathe Koulsoumi: produtora de sorgo, 17 de outubro de 2014.
  • Issa Mbourou: produtor de sorgo, 17 de outubro de 2014.
  • Carine Mala: professora e cientista da Faculdade de Ciências da Universidade de Maroua, 16 de outubro de 2014.

Projeto realizado com apoio financeiro do Governo do Canadá, por meio do Ministério de Assuntos Externos, Comércio e Desenvolvimento (DFATD).

Este roteiro foi escrito com o suporte da Irish Aid.


A Rádio Rural Internacional (Farm Radio International) é uma organização canadense sem fins lucrativos dedicada a apoiar emissoras de rádio em países em desenvolvimento para fortalecer comunidades rurais e a agricultura em pequena escala.

Segundo a organização, o material da Rádio Rural Internacional pode ser copiado ou adaptado para distribuição gratuita ou a preço de custo, com crédito para a Rádio Rural Internacional e para as fontes originais.

Esta versão em português é um trabalho voluntário, independente da organização e oferecido gratuitamente para as emissoras de rádio dos países de língua portuguesa. O texto foi traduzido para o português do Brasil, mas pode ser adaptado com facilidade para o português falado em outras partes do mundo (para dúvidas sobre os termos empregados, utilize o formulário de contato em https://radioruralportugues.wordpress.com/creditos-e-contato/).

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